terça-feira, 11 de junho de 2013

Filosofia da religião: sua relação com a moral, e sua missão social

D. J. Gonçalves de Magalhães
Este texto apareceu pela primeira vez no tomo I, nº 2, da Niterói, Revista Brasiliense, em 1836. Versão atual da reedição de 1865, cotejada com a de 1836.


Nota ao fim do texto.


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Circunscrito pelo mundo, o homem em torno de si volveu os olhos, e viu essa série de causas finitas; e através das formas que de contínuo se sucedem como ondas do mar, dessa cadeia não interrompida de efeitos que não bastam para dar a razão de sua existência, o homem, pela simples força de sua inteligência, necessariamente devia entrever que, em oposição ao finito, alguma coisa infinita existe; ideias estas correlativas, que mutuamente se despertam; e se na ordem cronológica o finito primeiro impressiona os sentidos, na ordem lógica o infinito se apresenta como primeiro à razão, e nem a ideia daquele se compreende sem a deste; e por esta força espontânea que caracteriza a humana inteligência, eleva-se o homem até a causa última, que única satisfaz sua curiosidade, além da qual nada se pode conceber, e assim adquire ele a ideia de Deus. “Se a inteligência”, diz Herder (Ideias sobre a filosofia da humanidade: I, 238), “é o mais nobre presente feito ao homem, a ela pertence traçar a conexão que entre a causa e o efeito existe, e mesmo adivinhá-la, se não se patenteia”. 

Refletindo o homem sobre si mesmo, viu-se mutável, e sujeito a um crescimento e a modificações que mau grado seu se operam; e concentrando-se em sua consciência, não lhe foi possível duvidar de que a forma exterior, sujeita às alternativas do tempo, ocultava uma substância permanente, e dela distinta; a esta substância referiu ele o seu - Eu. A dualidade foi ainda mais manifesta pela luta das duas naturezas; e o conhecimento do que em si se passava confirmou-lhe a ideia do que fora de si descobrira.

A sua força interna chamou ele alma, e a força do universo denominou Deus.

Desde logo entre a alma e Deus se estabeleceu uma relação toda especial. O homem assim erguido ao Ente Supremo, a ele sua existência devendo, dele dependendo para sua conservação e aperfeiçoamento, como poderia sufocar os transportes de sua admiração, e de seu reconhecimento, vendo-se colocado no mais sublime grau dos seres criados, e dotado de uma força espiritual que o alçava acima do mundo físico, e o comunicava até ao princípio de tudo? Como não humilhar sua limitada inteligência diante da infinita Inteligência do Criador do Universo? Eis a religião natural na sua forma mais simples.

Mas ficou porventura o homem no estado da natureza? Podia ele contentar-se com essa contemplação vaga, e parar nesse êxtase estéril? Não. Esta percepção, como um relâmpago misterioso através do mundo, podia extinguir-se; tudo tende a extinguir-se no mundo, tudo, até nossa lembrança, se a não perpetuamos por meio de monumentos. As belezas da natureza, as necessidades humanas, e todas as circunstâncias da vida podiam desviar o homem dessa fonte luminosa, desse Ser invisível, que ele deseja perpetuar, e ter sempre presente à sua inteligência, como aos seus sentidos. Convinha dar-lhe uma forma. A forma é a condição necessária da existência física. Que faz o homem? Além do mundo conhecido cria um mundo para seu Deus, onde ele exista distinto de tudo; e neste mundo terrestre cria uma forma material que o represente, e o manifeste continuamente aos seus sentidos. Tendo assim fixado sua ideia, fazendo-a sensível, e, por assim me explicar, materializando-a; não podendo ela escapar nem à sua inteligência, nem a seus sentidos, o instinto vago que a Deus o elevara, se converte em culto, adquire permanência, e nada haverá capaz de o destruir. Eis a realização do instinto religioso:

“O culto é para a religião natural o que a arte é para a beleza natural, o que é o Estado para a sociedade primitiva, o que para o mundo da natureza é o mundo da indústria. O triunfo da instituição religiosa está na criação do culto, como na criação da arte está o triunfo da ideia do belo, como o da ideia da justiça está na criação do Estado. O culto é infinitamente superior ao mundo ordinário; 1º porque o seu destino é o de lembrar Deus ao homem; enquanto que a natureza exterior, além da sua relação com Deus, tem outras, que distraem sem cessar o homem dessa vista; 2º porque é ele infinitamente mais claro, como representante das coisas divinas; 3º por ser permanente; enquanto que a cada instante à nossa móvel vista o caráter divino do mundo se enfraquece, e de todo se eclipsa. O culto, por sua especialidade e clareza, por sua permanência, chama o homem a Deus mil vezes melhor do que o pode fazer o mundo. É uma vitória sobre a vida vulgar ainda mais alta que a da indústria, do Estado, e da arte” (Victor Cousin, Introduction à l’histoire de a philosophie, 1828: I, p. 21).

A estas graves palavras de tão abalizado filósofo ajuntamos, que a religião é indispensável à sociedade, que ela contém todos os elementos da civilização, que é a fonte da filosofia, a base da moral, a origem do entusiasmo, e a criadora das artes.

Considerar a religião somente como um jugo moral, destinado a conter o ímpeto de violentas paixões de alguns homens, a quem não mostrara ainda a ilustração seus deveres sociais, é sem dúvida algum grau de importância conceder-lhe, e assinar-lhe a necessidade de sua existência como um meio político nas sociedades: mas é também despojá-la de seus mais belos atributos, desconhecer a natureza de sua divina origem, a órbita estreitar de sua missão augusta, aviltar o mais sublime sentimento do gênero humano; é enfim desnaturalizar tudo.

Não foi por um pacto de conveniência que os homens da natureza, os filhos dos desertos humildes se prostraram diante do Sol, da Lua, do mar, ou de outro qualquer simulacro, que eles seu Deus reputavam; nem é por amor de um punhado de homens degenerados, afeitos ao crime, e arrastados pela torrente das paixões, que os povos esclarecidos pelo sol da civilização, desde o berço da humanidade, até os nossos dias cultos consagram à Divindade, em seu nome erguendo tantos templos suntuosos, tantas cidades, tantos abrigos para infelizes, tantos hospitais para enfermos, e isto à custa de tantos sacrifícios.

Não; o sentimento religioso é mais profundo, mais humano, mais produtivo mesmo do que muitos pretendem; e se sua linguagem é misteriosa, é que este sentimento é um mistério em si mesmo, é que ele é eminentemente humano, e mais que todos os outros sentimentos; e o mistério é o fundo do homem:

Tudo o que se passa no interior de nossa alma é inexplicável; e se vós exigis sempre demonstrações matemáticas, só negações obtereis. Se o sentimento religioso é uma loucura, porque a prova o não acompanha, loucura será o entusiasmo, fraqueza a simpatia, e o sacrifício um ato insensato” (Benjamin Constant, De la religion considérée dans sa source, ses formes et ses développements, 1830: I, 25).

E vós homens da ciência, vós, que pretendeis tudo explicar com sistemas, conheceis vós a substância do universo, e a que vos constitui? Disseca o fisiologista o corpo humano, e crê explicá-lo; mas que tempo devolveu-se antes que o discípulo de Fabricius d’Acquapendente descobrisse a circulação! Entretanto ela se operava em todos os corpos. Rir-se-ia o egípcio do tempo de Quéops, ou talvez maravilha dos deuses julgasse, se ouvisse dizer que uma de suas famosas pirâmides, que passante de vinte anos de trabalhos custara, segundo nos refere Heródoto, se poderia hoje erguer em um dia; entretanto os cálculos dos economistas demonstram a possibilidade!

Mistérios há que debalde tenta o homem descortinar. Mau grado seu está ele sempre circunscrito. Eis porque Pitágoras recusava modesto o chamar-se sábio; o nome de filósofo melhor lhe convinha, porquanto ele, como todos, não possuía a verdade, porém sim a procurava.

Só Deus é sábio, porque só para Deus não há mistérios.

Há uma ordem de homens que dizem: queremos saber tudo; não queremos mistérios. Então excitados pela curiosidade, sustentados pelo orgulho, entregam-se a todas as fadigas da inteligência, e vão convertendo em verdades eternas todas as hipóteses de sua fantasia; e vaidosos de sua própria obra, enamorados dela, como Pigmalião de sua estátua, pretendem impor-nos suas ilusões como leis universais. Outras vezes, se eles chegam a descobrir alguma verdade através das trevas do mistério que a encobriam, sua curiosidade se acalma, e ao transporte do momentâneo prazer do descobrimento sucede a indiferença; então dizem: era uma coisa bem simples, bem natural, nem sabemos porque os homens a não tinham já descoberto. E quanto mais esta verdade se populariza, quanto mais se despe do mistério, tanto mais perde seus encantos, e seu valor; e isto caracteriza a progressibilidade do gênero humano, que jamais se farta com o que possui. Por que não damos nós valor ao ar? E portanto é ele indispensável à vida. É porque o não procuramos, e ele por toda a parte nos cerca. Se para nós como o ar fosse a verdade; se ela como o Sol do estio radiante se nos antolhasse, sem prazer a veríamos, e nenhuma importância lhe déramos. Este mesmo astro que nos aclara todos os dias; este astro benfazejo, que vivifica todos os seres animados, como nos fatiga, quando se patenteia com toda a sua magnificência luminosa! E como nos faz palpitar de prazer o coração, quando através dos nevoeiros do inverno, parco de luz, a furto por um momento brilha, iludindo nossa esperança, e excitando nosso desejo! Assim é a verdade em todas as coisas! Semelhante à beleza, se difícil, nós a amamos; se fácil, a desdenhamos. Homens, se quereis amar sempre, não destruais o pudor, que é o mistério da beleza. Filósofos, se quereis que a religião profícua seja, vede como tocais em seus mistérios.

O mistério não é uma palavra vã, filha do engano, e que um dia desaparecerá; o mistério é a forma da verdade; como impossível é, por mais que as gerações se sucedam, que o homem atinja a última verdade, por impossível que ele se eleve em sabedoria ao Ser Supremo, o mistério existirá sempre neste vale de lágrimas.

Alguns homens, dos que pretendem tudo saber, não querendo manifestar sua fraqueza em coisas superiores à humana inteligência, negam tudo; meio fácil para mascarar a ignorância, e cuidam ter achado a verdade. Deus é um fantasma para eles, uma criação de espíritos fracos; a alma humana uma matéria mais sutil; a religião um jugo moral, uma serva da tirania; a moral um puro interesse; e tendo destarte destruído todas as ideias do santo e do justo, repousam eles no seu erro; como o viajor que, desprezando a sombra da árvore copada, arma pequena barraca, onde se abrigue; mas o vento da noite a derriba, e exposto o deixa à intempérie do ar; enquanto que aqueles que adormeceram à sombra da árvore, vêem raiar a aurora sem sofrimento. Felizmente o materialismo não é a filosofia da humanidade, e aqueles que parecem professar tal doutrina, em tantas contradições disparam, a tais tergiversações recorrem, que enfim deles dizer-se pode, ou que a si mesmos se não compreendem, ou que ostentam uma linguagem que sua razão não sanciona; e a ideia necessária de um Ser Eterno se manifesta sempre debaixo de diversos nomes.

Aqueles que à religião só o poder acordam de refrear a perversidade, bem poderiam, mais latitude dando ao seu paradoxo, e porventura mais concludentes sendo com seus princípios, tal virtude negar-lhe; que mais é a religião consoladora, que refreadora; mais tende a animar as boas ações, que a punir as ruins; e mais influi sobre um coração dócil, do que sobre um impetuoso; semelhante a uma árvore peregrina, ela só dá frutos saborosos em terreno próprio, e debaixo de um céu propício.

A religião é um sentimento nobre de moralidade, de admiração, e de reconhecimento, incompatível com os desmanchos daqueles que ou para o crime nasceram, ou nele se afizeram; porque todo o homem nasce trazendo em seu coração o gérmen do bem, ou do mal, que depois os anos desenvolvem, e seja qual for este desenvolvimento, escrito se acha com caracteres indeléveis sobre o seu rosto, como arreigado em seu coração.

Um dos caracteres distintivos da ignorância e da maldade é o não prever o futuro, e só temer o presente, menos perigoso às vezes que suas consequências. Nunca o assassino suspendeu o punhal preste a embeber-se no sangue de sua vítima, amedrontado pelo fantasma do remorso, ou pela ideia da justiça humana, à que ele cuida sempre escapar. As hordas de salteadores, que infestam as estradas da Itália, mais temem o aspecto de um destacamento militar que as persegue, do que todo o horror do inferno, e os raios impotentes do Vaticano. Em nenhuma parte do mundo impediu a religião que Neros e Calígulas fossem tiranos, porém mais do que isso tem ela feito; ela, e só ela tem inspirado grandes coisas, nutrido grandes virtudes, e armado os povos contra seus opressores.

Mas tão absurdo fora o concluir que, atenta à impossibilidade de elevar uma barreira invencível a excessos tais, é ela inútil, como o afirmar ser esse o seu único fim. Um exemplo manifestará melhor o nosso pensamento.

As leis positivas, modeladas pela ideia da justiça universal, cujo sentimento em nós achamos, tem por destino a manutenção do Estado, o qual é a realização da ideia do justo. As leis não podem manter o Estado senão debaixo de três condições: ou sustentando o bem, por meio da recompensa; ou impedindo o mal pelo temor, e exemplo; ou enfim tornando o mal em bem pela correção, e castigo; disto surte a harmonia social. Se porém em lugar de dizermos que o fim das leis é a manutenção do Estado, designarmos como único fim uma das três condições, por exemplo (tomemos aquela que mais ordinariamente se apresenta como fim), o converter o mal em bem, isto é, punir o culpado, para que ele seu crime não reitere, tornando-se destarte melhor, segue-se que os outros nem de prêmio, nem de exemplo necessitam, e que para eles inúteis são as leis; e sendo elas repetidas vezes infrutíferas a respeito do terceiro, segue-se ainda que sua missão nesta parte sendo também limitada, podia sem leis existir o Estado, confiando-se à vingança individual a punição do culpado, não equivalendo ao fim obtido a soma de meios empregados. Chegados a este ponto, patente pelo absurdo da conclusão a falsidade dos princípios que a continham, vendo nós tantos fatos, que a história de todos os povos nos recorda, já morrer no desânimo, falto de recompensa quem grandes obras fizera, e pudera ser ainda útil à humanidade; já pelo mau exemplo desregrar-se aquele que sem isso sempre se conservara na estrada da virtude; já pela impunidade adquirir o vício novas forças, e precipitar-se em novos crimes, e destruída enfim toda a harmonia social; quem não se revoltará contra tais princípios, únicas causas de tal consequência? Ora, menos absurda não é a consequência depreendida do princípio estabelecido como verdade entre alguns homens, que o único fim da religião é conter o império das paixões, e que ela inútil é ao virtuoso, e ao filósofo. Todas as nossas ações se reduzem a raciocínios práticos; se falsos são os princípios, maus são os resultados. Não; vós vos enganais; outro é o fim da religião, outra é a sua origem, outros são os frutos que de seu seio tira, e com os homens reparte.

A religião considerada em relação ao seu objeto, é destinada a representar de uma maneira mais clara e distinta a ideia de Deus; como tal é ela um elemento necessário e fundamental da sociabilidade; é a filosofia do povo, e a moral de todo o mundo. Se o homem tem direitos, o que nos parece inegável apesar das teorias dos panteístas e céticos, tem também deveres, e o primeiro é para com seu Deus. E com Kant pensamos, que a religião é o complemento de todos os deveres, considerados como prescritos pela Divindade. Mas se nos perguntam: quem guiará o homem no cumprimento de tais deveres, e se porventura ele não pode enganar-se? Responderemos, que basta que o homem leve suas ações ao tribunal da própria consciência, e que se aí desliza o engano, se ela tomar o injusto pelo justo, outro guia será ainda mais suscetível de erro.

Os que contra a religião pleiteiam, curam primeiro de a desligar da moral, cuidando deste jeito aniquilar o seu fim, e provar por conseguinte sua inutilidade; e não vêem eles que nada mais fazem do que enfraquecer a moral, sem destruir a religião. Pretender separar a moral da religião, é pretender dar-lhe outra base, e outra base, qualquer que ela seja, não sendo a ideia do dever em si, emanada de Deus como fonte de todas as ideias eternas, independentes da humana vontade, é falsa, arbitrária, incapaz de excitar em nós nenhum entusiasmo, e impotente para manter o equilíbrio social. O homem procura em todas as coisas o invariável, o absoluto, e não se farta enquanto o não acha. Nisto se apóia ele como base de suas ações; se porém ao absoluto sucede o relativo; se o sentimento externo e variável sucede ao sentimento interno e invariável, que fanal seguro poderá indicar ao homem a verdade?

Não podemos crer que a moral do interesse tenha um futuro, apesar de parecer hoje assenhorear-se do mundo; se ela tivesse sido a crença do gênero humano, certo, não teria produzido tantos milagres do gênio, tantas gentilezas de armas, tantos prodígios de virtude, superiores às humanas fraquezas. Estudemos a história da humanidade; tudo o que ela de mais extraordinário e sublime nos mostra, se não é inteiramente produzido por uma ideia religiosa, ao menos com ela se mescla.

O Oriente, berço da humanidade, e da civilização, é também um vasto templo consagrado aos mistérios da religião. Tudo ali existe debaixo da forma religiosa. No Egito, religião, filosofia, e poesia é uma e a mesma coisa. Legislação, astronomia, agricultura, e as boas artes da religião dimanam, e a ela se referem. Ao espírito grego estava reservado o separar os elementos aglomerados, condição necessária de todo o desenvolvimento, e progresso. Separados os elementos, nem por isso se tornaram independentes. As primeiras escolas filosóficas da Grécia filhas eram da religião. Dos sacerdotes egípcios transportou Pitágoras para a Grécia a ciência, e os costumes, e até o uso da exclusão de certos alimentos, como carnes, e favas, que, segundo o dizer de Heródoto, os padres nem sua vista suportar podiam, considerando-as como um legume impuro. Toda religiosa é a poesia grega; Homero, Hesíodo, Píndaro não cantam senão os deuses imortais, e os heróis por eles protegidos, e que à sua fileira se alçavam, recebendo em seus cantos as honras da endeusação. As artes servem primeiramente aos deuses, que aos homens; enquanto que a arquitetura eleva os mais belos monumentos a uma religião antropomórfica, a escultura, inspiração nimiamente religiosa, toca ao seu mais alto ponto de perfeição, materializando os deuses, e endeusando os homens.

Era ainda pelos deuses que combatiam os gregos. Menos supersticiosa, porém não menos religiosa, a Grécia representa um quadro completo de civilização dimanada da religião, onde ela ocupa o primeiro lugar, e nela tudo se converge como centro de todo o movimento. Se da pátria de Homero nos transportamos a Roma, outro tanto dizer podemos. Ninguém ignora o como os romanos religiosos eram, tocando mesmo à superstição; apesar disso Roma era a soberana da terra. Que grande homem hoje, que conspirador veria seu ânimo abatido, desarmada sua coragem, só por ouvir o canto de uma gralha? Quando perdeu Roma a sua fé; quando o amor dos deuses, substituído pelo do luxo, deixou de vigorar os espíritos dos filhos dos Catões, e dos Brutos, perdeu ela sua soberania, e converteu-se em humilde escrava de tiranos, até que expirou com eles.

Que vemos nós ainda na civilização moderna, nesta civilização que se estende por toda a Europa, lugar de seu nascimento? Nesta civilização que descobriu, e iluminou o Novo Mundo, e que se propaga pela Ásia, e África? De onde saiu ela? Quem a produziu? Quem a guiou até os nossos dias, sempre crescente, e mais rica e florescente que nenhuma antes dela? O cristianismo, somente o cristianismo é o fundamento da civilização moderna; foi ele quem salvou os restos da antiga; dele saiu a filosofia, o Estado, a moral, moral sem exemplo, a indústria, as artes, e a poesia; em torno do cristianismo se colocam os mais sublimes gênios de que se enobrece a humanidade; os Agostinhos, Newton, Leibniz, Dante, Carlos Magno, Tasso, Miguel Ângelo, Rafael, Bossuet, e Fénelon inspirados foram pelo cristianismo.

Todas essas lutas da Idade Média, essas guerras religiosas, essas cruzadas, essas invasões dos poderes entre si, dos nobres contra os reis, destes contra os nobres, de ambos contra o povo, e deste contra ambos, todas essas coisas grandes meios de civilização foram, de que ganhou a humanidade. A guerra outra coisa não é mais que a luta das ideias debaixo de uma forma material, representadas pela força; e grandes mudanças não se operam sem luta; a guerra é o último grande meio de que lança mão o espírito, é a razão última; e essas guerras do cristianismo, contra as quais tanto se tem declamado, mais úteis, mais profícuas foram ao progresso da civilização, que todas as declamações contra elas expendidas.

Vimos na história da civilização a importante parte que tem representado a religião. Transpusemos rapidamente os séculos, e de uma maneira geral traçamos um quadro, que qualquer, posto que pouco lido, poderá terminar; além de que o objeto é por si mesmo tão saliente, tão verdadeiro, que longa demonstração dispensa, sendo assaz o que dito havemos para o nosso fim. Mas segundo as ideias variam os séculos. Uma ideia destinada a ter em tal época seu desenvolvimento, embarga o das outras. Assim vemos que, posto que entre si as ciências se sustentem, e umas das outras dependam, como ramos de um mesmo tronco, contudo um mesmo homem não pode chegar à perfeição de uma ciência sem ser à custa, e com sacrifício das outras. A religião teve também seus séculos de desenvolvimento, e esses foram sempre os primeiros de cada povo, que pela teocracia começam os povos. Mas, por uma particularidade, que lhe é própria, e só a ela compete, seu desenvolvimento não é incompatível com os dos outros elementos, ao contrário os supõe, os contém, e os aglomera na sua própria vida; porquanto é ele o elemento primitivo, e, por assim dizer, o núcleo da civilização. O contrário porém acontece com o desenvolvimento dos outros elementos. É assim que a vida de uma mãe não se consome para si só, e se consagra à vida de seus próprios filhos, enquanto que o desenvolvimento de cada um destes se opera independentemente dos outros, até que um dia de sua própria mãe se separam. Não é arbitrária esta comparação, é a explicação mesma do fato.

Há uma ideia predominante, e uma filiação na ordem moral, no mundo das ideias, como no mundo físico; causas e efeitos fazem os anéis da cadeia de tudo o que conhecemos, e a priori, ou a posteriori descobrimos uma pela outra.

Nós vimos as épocas do domínio do princípio religioso; no Egito, na Grécia, em Roma, na Idade Média o achamos, contendo, e explicando todos os outros; vejamos agora em que época do mundo pareceu ter ele desaparecido, e qual o aspecto dessa época. Primeiramente nenhum século há completamente irreligioso, a diferença é de mais ou menos. Se na história da humanidade um só século se apresentasse completamente irreligioso, isto bastará para provar, que este elemento lhe era extrínseco; mas é o que se não observa.

Se a ideia destinada a desenvolver-se não é contrária e oposta à precedente, ela não exclui a outra, e a seu lado marcha, conquistando o tempo e o espaço necessários ao seu aumento. Assim, se um princípio que dominara, começa a decair, e a perder sua influência, até quase ao ponto de perecer, a razão deste fato procurá-la devemos na nova ideia dominante. Agora indaguemos em que época, em que parte do mundo conhecido, pareceu o elemento religioso deixar de influir, que ideia o substituiu, e que espetáculo essa época apresenta.

Com a luz da história difícil não nos é marcar essa época, e para não irmos muito longe de nós, para podermos ver, e tocar um quadro, por assim dizer, ainda semivivo e palpitante, lancemos os olhos sobre a França no século XVIII.

Qual é o homem um tanto lido que não conheça o espírito desse século representado pelos filósofos enciclopedistas? É o século do movimento filosófico, assim o chamam; mas sua filosofia outra coisa não é senão a promulgação categórica e dogmática da teoria da sensação, como a única expressão da verdade, e a derradeira da filosofia, ante a qual tudo devia calar-se, além da qual não podia ir a inteligência. A seu lado vem a moral do interesse, como consequência necessária de tal princípio; uma exclusão completa, uma guerra de morte ao cristianismo, e a todas as ideias religiosas; enfim, fora do sensualismo, e do egoísmo nenhuma verdade havia para eles; todas as armas são empregadas, e na falta de razões supre o ridículo. Não podemos deixar de citar estas palavras de Chateaubriand:

Eram os enciclopedistas os homens mais intolerantes, e por isso é que os não posso sofrer. Eu os tenho como hipócritas da liberdade, como falsos apóstolos da filosofia, que tomaram o humor de sua vaidade ferida por um sentimento de independência, seus ruins costumes por uma volta ao direito natural, e seu furor irreligioso pela sabedoria. Não foram suas doutrinas que produziram a parte boa do fundo de nossa revolução; nesta revolução só lhes devemos a mortandade dos padres, as deportações para Guiana, e os cadafalsos!”

Mas prossigamos a revista dos principais atores deste drama.

Voltaire, essa extravagante e extraordinária mistura de gênio e de ridículo, o autor de Zaïra, é também o autor da Pucelle! Ele combateu com todas as armas o cristianismo, que lhe inspirara suas obras primas, e lhe assegurara o lugar de honra entre Corneille e Racine. Holbach apresenta o seu tão célebre Sistema da natureza [Le système de la nature, ou eles lois du monde physique et du monde morale (1770)], em que chega a confessar o ateísmo, e a possibilidade de uma sociedade de ateus.

Helvetius funda a moral no interesse individual; e ao mesmo Voltaire tão estranha pareceu essa obra, que assim dela se explica: “dir-se-á que o autor quer que se não seja governado nem por Deus, nem pelos homens”; e mais adiante: “a moral é gravemente ferida no livro de Helvetius.” Volney compõe o catecismo da Religião natural, que ele pretende impor ao homem social! Um grande número de autores subalternos, mais ou menos nomeados, enchem as fileiras dos combatentes contra a religião. O combate está decidido; todos pensam em filosofia como Condillac, em moral como Helvetius, em religião como Volney, e Holbach. Quais são as consequências desta trina aliança? Que penhores dá ela, para ousar pedir tempo, e espaço para seu progresso? Que espetáculo apresenta tal século? Com a história diante dos olhos, esse depoimento dos povos, a todas essas questões fácil nos fora o responder; mas preferimos ceder a palavra a um erudito filósofo, nascido nesse mesmo século, e que ao nosso pertence, a um observador profundo, cujo nome, adquirido em longo estudo, é uma segurança para a verdade.

Cousin, falando sobre a filosofia do século XVIII assim se exprime:

Qual poderá ser o governo de uma tal época? Não será certamente um governo livre, fundado sobre o conhecimento e o respeito dos direitos da humanidade; porque como poderiam ser tais direitos presumidos, reivindicados, e conquistados? A filosofia da sensação, e do egoísmo devia ser contemporânea de uma ordem social sem dignidade, de um governo absoluto, porém por si mesmo caindo de fraqueza e de corrupção. Implica que então pudesse qualquer império ter tido sobre as almas a religião; porquanto toda a religião, qualquer que ela seja, outra doutrina inculca, e não o predomínio dos sentidos, e do prazer. As artes, e a poesia pequenas e mesquinhas deviam ser de necessidade; porque implicaria ainda que grande fosse a forma do pensamento e do sentimento, quando carência havia de grandeza ao sentimento e ao pensamento” [op. cit.].

A esse quadro traçado pela mão do filósofo ajuntamos os versos de um célebre poeta desse século. Gilbert fez a sátira do século XVIII, fiel retrato cheio de verdade, e de expressão, no qual se mostra filósofo, moralista, pintor, e poeta. Mas assaz longa é ela para este lugar, e para o ponto em questão basta o seguinte extrato, em cuja tradução mais que tudo tivemos em vista a fidelidade literal:

"Cresce um monstro em Paris, e se vigora
Co’o manto ornado da filosofia,
E revestido assim co’um falso nome,
A verdade, e os talentos aniquila.
P’rigoso inovador, co’o ímpio sistema,
Do céu quer expulsar o Ente superno,
E que a sorte do corpo alma sofrendo,
Por dupla morte ao nada o homem chegue.
Mas de aspecto feroz não é tal monstro,
E, em nome, habita-lhe a virtude os lábios.
Reformador astuto do universo,
Traçou primeiro, do segredo à sombra,
Os seus escritos propagar; proscrito,
Porém sutil na sua desventura,
Bem depressa co’um cetro a destra armando,
Governando o Parnaso, esse tirano
Das boas Artes, dos mortais deus novo,
Aras roubou aos difamados deuses;
E quando nessa idolatria a França,
Qu’ele corrompe, a barbaria toca,
Fiel o monstro a nos gabar seus erros,
Sobre nossa desonra até cegou-nos" [1].

É o mesmo objeto tratado poeticamente. Mas este sistema filosófico, representado como um monstro, que invade o céu, e a Terra, que pretende destruir Deus, e a religião, que aniquila a virtude, o talento, a poesia, e as artes, é a verdade do quadro traçado pelo filósofo; e nós, ao lado do outro, o apresentamos, para mais cabal testemunho que toda a ideia que se opõe de frente à religião, de rasto leva a moral, a poesia, e as artes; e que a moral do egoísmo é uma árvore perniciosa, só destinada a dar amargos frutos à humanidade.

Outra coisa podemos ainda fazer: transportemos essa tríade filosófica, moral, e religiosa a outro país, e procuremos seus resultados. É pelo método experimental que devemos marchar nas coisas humanas. Desta vez não iremos a países estrangeiros; queremos apresentar um quadro vivo, e que ante os olhos esteja de todos os nossos leitores. Eis aí o Brasil. Olhai, e examinai bem; estudai o seu caráter, e vede sua ideia dominante. É pelo Brasil, e só para o Brasil que escrevemos; melhor que nenhum outro país o conhecemos; estranho não parecerá decerto, que observemos o que nele se passa.

O Brasil colocado em outro hemisfério, em outro continente por muito tempo fora do contato da civilização europeia, tendo de trilhar a estrada, que a nova civilização lhe marca, de nenhum modo pode ter por presente o presente da Europa, centro hoje da civilização. Impelido mais tarde ao movimento, falto de molas que o ativassem, lentamente devia tocar os diferentes graus que a civilização europeia, em sua marcha, após si deixara; seu presente é pois o passado do centro ilustrado da Europa. Ora, como os elementos de uma época, segundo vimos, estão sempre em harmonia, indiferente nos seria começar a análise por este, ou por aquele, para chegarmos ao resultado; seguindo, porém, a ordem que a questão demanda, tomemos a moral, base do Estado.

Ninguém dirá certamente, que aí domina a moral do dever, a moral religiosa. A moral livre é a única que aí se conhece; a moral do interesse, tal como ensinara Helvetius, é a única praticada. O Tratado de legislação [An introduction to the principles of morals and legislation (1789)] de Bentham é o código dos legisladores. A filosofia ensinada nas escolas à mocidade é a das sensações; a teoria de Condillac, de Cabanis, e de Tracy, teoria que em rigorosa consequência no materialismo esbarra, é a geralmente conhecida, e abraçada como um dogma, como uma verdade incontestável, enfim como a última expressão da filosofia. Vejamos agora qual é a força moral de seu governo; qual o estado da indústria, das artes, da poesia, e da literatura. O filósofo, que citamos, podia livremente falar de um século que não era o seu, de um século que morrera, de um século cujas personalidades, e paixões não receava estimular, mas nós, face a face colocados com o século em questão, cercados de tantas individualidades, de tantas paixões, ser-nos-á relevado porventura o explicar-nos com a mesma liberdade e franqueza, com a mesma calma de espírito, e sossego de coração? Ser-nos-á lícito afrontar todas as suscetibilidades, e poderemos levar até as últimas consequências a análise filosófica dos princípios da moral antirreligiosa? Difícil é sem dúvida para o escritor consciencioso uma tal posição; de um lado teme faltar à verdade, do outro receia molestar as suscetibilidades; mas eis que uma lembrança nos surge, e nos tira da dificuldade.

Um homem que entre nós goza de uma reputação colossal pela vastidão de seus talentos; um homem que se elevara aos mais eminentes lugares da nação, dirigindo mesmo por algum tempo seus destinos; um homem em suma filho do XVIIIº século, e que professa sua doutrina, disse no recinto da câmara dos deputados, que o Brasil só fazia progressos na imoralidade. Sua voz teve eco, e o sentimento da aprovação foi manifestado. Terrível proposição! Será a expressão dos fatos, ou da acrimônia de sua bílis? Como porém nas coisas humanas toda a proposição exclusiva claudica, se muito se generaliza, salvas as exceções desta, uma força superior à nossa vontade nos obriga a abraçá-la como certa. Porventura tem aí o governo a convicção de sua força? E os cidadãos a certeza da segurança de seus direitos? O que indica a contínua reforma das leis, que só tende a enfraquecê-las, como definham os arbustos mil vezes transplantados? O amor da pátria, frase tão repetida, e que se torna vazia de sentido, é aí porventura capaz de nobres sacrifícios? Que caráter elevado, independente e justo mostram os magistrados, e públicos funcionários, objetos de contínuos clamores, e das invectivas dos diaristas? E que energia enfim revela essa mocidade enervada pelas doutrinas do prazer, que se enfatua com uma falsa aparência de ciência, e que ajuíza, critica, e decide das coisas mais sublimes com a mesma ostentação e petulância de um charlatão público das ruas de Paris? Mas para que numerar fatos? Não é isto o que todo o mundo vê? Não se queixam os homens sensatos dessa sede insaciável de dominar, que faz com que o mérito, de envolta com a torrente da ignorância que de todos os lados se desaba, em redemoinho desapareça? E tais atos podem acaso ser consequência da ideia do justo e do dever prescritos pela Divindade?

Se é certo, como cremos, que nossas ações revelam nossos pensamentos; se não obramos senão em consequência de uma ideia, de que o ato é a realização, porquanto não se dá efeito sem causa, onde acharemos a causa do que vemos? A causa está só nas falsas ideias que entre nós lavram. E note-se que as ideias, e só as ideias podem moralizar, ou desmoralizar os povos; são as ideias de uma incompleta teoria filosófica, mal interpretada, que, opondo-se à sanção religiosa, e à moral do dever, destroem todos os sentimentos nobres da virtude; ora, quando essas três potências, que são as grandes vísceras do Estado, sofrem, impossível é que o contágio se não propague.

Mas a bem da verdade digamos, que do mesmo modo que o homem vive por algum tempo com um pulmão ulcerado, ou com um aneurisma no coração, até que a moléstia toque a seu último período; assim o Estado, ferido gravemente nas suas partes mais sensíveis, resiste ao gravame do mal, e moribundo se arrasta, até que uma nova força o regenere. Graças à Providência, o resto de vida que se concentra em alguns homens, é às vezes bastante para aniquilar os terríveis efeitos do contágio.

Mas três objeções nos podem opor os discípulos de Hobbes, e de Helvetius: 1º que nós exageramos os fatos; 2º que tais consequências não são filhas dos seus princípios; 3º que a vida pura, e nobre procedimento de um grande número de filósofos que tais doutrinas pregaram, dão cabal testemunho, que incompatível não é com a virtude o egoísmo.

Quanto à primeira objeção toda de fato, apelamos para a observação, e para a consciência de todos. Vejamos a segunda. Enquanto a moral do dever nos obriga a obrar desta ou daquela maneira independente de todos os cálculos de felicidade, a moral do egoísmo nos constitui juízes de nossas ações, dando-nos como regra o interesse, e a felicidade por fim; desde logo a ideia do justo desaparece, e a mais heróica virtude passa a ser um interesse, consequência a que ousadamente chegou Bentham. Desde logo, o prazer e a dor se levantam, para designar-nos o bem e o mal. Nada é mais lisonjeiro do que semelhante princípio; nada, porém, nos arrasta a consequências mais absurdas.

Prescindindo da ideia do dever, adotando o interesse por guia, muitas vezes hesitamos sem saber ao que devemos dar a preferência, procurando o que nos trará maior soma de felicidade; e como só o resultado pode decidir, nada será mais incerto e variável do que a moral. De rigor, procurando o homem justificar suas ações, folga quando neste gênero de moral acha um princípio em que se apóie. Como a virtude no egoísmo não consiste na submissão do indivíduo a uma ideia que se apresenta com o caráter de lei absoluta, prescrevendo às vezes a abnegação de si mesmo, mas sim na maior soma de prazer, fácil lhe é o ser virtuoso; e apelando para a natural disposição de sua organização, fica livre ao salteador o roubar, porque daí lhe surte um prazer, e a satisfação de sua alma corrupta; ao governo é dado aspirar à tirania; ao empregado público à dilapidação do Estado; fica o campo aberto a todas as ambições; a mocidade licenciosa entoa com Anacreonte o cântico de amor; lança um anátema sobre as leis sociais, e invoca em apoio de suas voluptuosas torpezas as leis da sua organização, que ela denomina leis da natureza. Clamam as mulheres contra a tirania dos homens, e dizem: quem vos deu o direito de coarctar nossa liberdade? Porventura não fazemos parte da humanidade? Deve a nossa vida ser um contínuo sacrifício ao vosso prazer? Não teremos a iniciativa na escolha da nossa felicidade? Tais são as consequências imediatas da moral do interesse. Mas direis vós: o interesse deve ser bem entendido, e assim é que o concebemos. Bem, e qual será o guia na boa inteligência do interesse? Será o prazer? E porventura cifram todos o prazer em um mesmo objeto? O que para um é prazer, é para outros uma dor. Devemos porventura determinarmo-nos sempre para tal, ou tal ação, logo que ela se nos antolhe como podendo dar-nos algum prazer?

Se nos dizeis, que tal ato, posto pareça trazer-nos a felicidade, e causar-nos prazer, pode enganar-nos, e não o devemos praticar; responderemos com a filosofia da sensação, que sendo a pedra de toque do prazer o nosso próprio sentimento, a ele devemos recorrer, e por ele guiar-nos, e não pelo vosso. De outro lado, jamais podereis provar ao incestuoso, por exemplo, que ele não deve sentir prazer no crime, porque disso lhe não surte interesse; e que portanto se deixe guiar por vós na escolha de suas ações; se o fizerdes, anulareis o guia que primeiro lhe havíeis dado, impondo-lhe uma lei fora de sua organização, independente de sua vontade; prescreveis-lhe um dever, e imediatamente aberrais dos vossos princípios, e cai vosso sistema. De duas, uma: ou o prazer é o nosso único guia, ou não é; se é, tomai como consequências legítimas da vossa teoria o que acima apontamos; se não é, então é falso o vosso sistema.

Resta a terceira objeção, que nada prova em vosso favor. A vida dos sofistas não marcha em harmonia com suas ideias. Além de que todos os homens não são assaz instruídos, para se poderem determinar por esse móvel tão variável, tão sujeito a degenerar-se, e opor na maior parte dos casos uma resistência às suas inclinações. Tais sofistas assemelham-se aos dançarinos de corda, que, porque bem nela se equilibram, assentam que todos devem imitá-los; ou aos fortes nadadores, que, podendo por um longo hábito permanecer por algum tempo debaixo das ondas, julgassem por isso que são os homens animais aquáticos. Os discípulos seguem sempre a doutrina dos mestres, e raras vezes o seu exemplo. Foi Epicuro na Grécia o representante dessa filosofia que Hobbes, Gassendi, Shaftsbury, Helvetius, e Bentham depois desenvolveram. Segundo Diógenes de Laércio, sua virtude foi marcada com ilustres caracteres; ele sofria as dores, e as privações com a intrepidez de um estóico; e entretanto o que saiu de sua escola? Seus discípulos, longe de imitar a vida do mestre, interpretaram à letra suas máximas, e com o nome de epicurista se designa o homem entregue à devassidão. Posto que as palavras tenham um valor convencional e relativo, e devam ser interpretadas, contudo assim não acontece no trato geral; o povo lhes dá sempre um valor real, e as identifica com as ideias, a que ele se acostumara a vê-las ligadas. Por isso impunemente se não pode alterar a sua significação; e os filósofos que fundam uma teoria sobre palavras que já têm uma determinada acepção, dando-lhes um sentido diferente, correm o risco de não serem entendidos, e de verem de seus princípios sair perniciosas consequências.

Resumiremos este artigo, dizendo, que a religião é um dos mais fortes elementos da sociabilidade; que a moral do interesse não é moral; que a ela devemos todos os males com que lutamos; que com ela toda política é má; que com ela jamais poderemos engrandecer-nos. O interesse avilta todas as ideias, e repudia todos os grandes sentimentos. Convém que o governo ao menos uma vez lance os olhos sobre a mocidade; que faça ensinar nas escolas uma moral pura, uma filosofia sã, e nutra o sentimento do amor divino. Nada podemos hoje temer do fanatismo religioso, ao contrário tudo sofremos do Estado atual; e quando o governo não considerasse os meios indicados senão como outras tantas ideias pejadas de cruéis consequências, ainda assim por um conselho da política devia lançar mãos deles, para destruir o mal existente, como o prático entendido se serve com proveito de um veneno para atalhar o progresso da enfermidade.

Nota
[1] A grande dificuldade de traduzir versos franceses em Português em matéria, sobretudo, que requer rigorosa fidelidade, força-nos a dar o original deste extrato, para aqueles que a língua conhecem, e que talvez não possam obter um exemplar das obras de Gilbert, entre nós pouco nomeado:
Un monstre dans Paris, croit et se fortifie
Qui, paré du manteau de la philosophie,
Que dis-je? De son nom faussement revêtu,
Etouffe les talens et détruit la vertu;
Dangereux novateur, par son cruel système,
Il veut du ciel désert chasser l’Être Suprème;
Et du corps expiré l’âme éprouvant le sort,
L’homme arrive au néant par une double mort.
Ce monstre toutefois n’a point un air farouche,
Et le nom de vertu est toujours dans sa bouche.
D’abord, de l’univers réformateur discret,
Il semait ses écrits, à l’ombre du secret,
Errant, proscrit partout, mais souple en sa disgrâce;
Bientôt, le sceptre en main, gouvernant le Parnasse,
Le tyran des beaux arts, nouveau Dieu des mortels,
De leurs dieux diffamés usurpa les autels,
Et lors qu’abandonnée à cette idolâtrie
La France qu’il corrompt, touché à la barbarie,
Fidele à nous vanter son parti suborneur

Nous a fermé les yeux sur notre déshonneur.

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