quinta-feira, 13 de junho de 2013

Sermão de Santo Antônio

Padre Antônio Vieira

Na festa que se fez ao Santo na Igreja das Chagas de Lisboa, aos catorze de setembro de 1642, tendo-se publicado as Cortes para o dia seguinte.

(Texto de filosofia política: sobre o modo do ser-obrigado, na igualdade; e a possibilidade dos indivíduos, sendo desiguais, de viverem na justiça.)


“Não há tributo mais pesado que o da morte, e contudo, todos o pagam, e ninguém se queixa, porque é tributo de todos. Se uns homens morreram, e outros não, quem levara em paciência esta rigorosa pensão da mortalidade? Mas a mesma razão que a estende, a facilita; e porque não há privilegiados, não há queixosos (…) Se se repartir o peso com igualdade de justiça, todos o levarão com igualdade de ânimo.” 
Padre Antônio Vieira

“Bom era que nos igualáramos todos: mas como se podem igualar extremos que têm a essência na mesma desigualdade? (…) Não é necessária Filosofia para saber que um indivíduo não pode ter duas essências (todavia) pelas conveniências do bem comum se hão de transformar os homens: hão de deixar de ser o que são por natureza, para serem o que devem ser por obrigação.” Padre Antônio Vieira

Vos estis sal terrae[1]. Mt, 5.

I

À Arca do Testamento (que assim lhe chamou Gregório IX) ao Martelo das heresias (que este nome lhe deu o Mundo) ao Defensor da Fé, ao Lume da Igreja, à Maravilha de Itália, à Honra de Espanha, à Glória de Portugal, ao melhor Filho de Lisboa, ao Querubim mais eminente da Religião Seráfica, celebramos festa hoje. Necessário foi que o advertíssemos, pois o dia o não supõe, antes parece que diz outra coisa. Celebramos festa hoje, como dizia, ao nosso Português Santo Antônio: e se havemos de reparar em circunstâncias de tempo, não é a menor dificuldade da festa, o celebrar-se hoje. Hoje? Em catorze de setembro Santo Antônio? Se já celebramos universalmente suas sagradas memórias em treze de junho, como torna agora em catorze de setembro? Entendo que não vem Santo Antônio hoje por hoje, senão por amanhã. Estavam publicadas as Cortes do Reino para quinze de setembro; vem Santo Antônio aos catorze, porque vem às Cortes. Como há dias que o Céu está pela Coroa de Portugal, manda também seu Procurador o Céu às Cortes do Reino. Algumas sombras disto havemos de achar entre as luzes do Evangelho. Com três semelhanças é comparado Santo Antônio ou com três nomes é chamado neste Evangelho. É chamado Sal da terra: Vos estis sal terrae: é chamado Luz do Mundo: Vos estis lux mundi: é chamado Cidade sobre o monte: Non potest Civitas abscondi supra montem posita[2]. Esta última semelhança me faz dificuldade.

Que Santo Antônio se chame Sal da terra, sua grande sabedoria o merece: que se chame Luz do Mundo, os raios de sua doutrina, os resplandores de seus milagres o aprovam; mas chamar-se Cidade Santo Antônio: Non potest Civitas abscondi! Um Santo chamar-se uma Cidade? Sim. Em outro dia fora mais dificultosa a resposta; mas hoje, e no nosso pensamento, é muito fácil. Chama-se Cidade Santo Antônio, porque os Procuradores de Cortes são Cidades: são Cidades pela voz, são Cidades pelo poder, são Cidades pela representação; e assim dizemos que vêm às Cortes as Cidades do Reino, e não vêm elas, senão seus Procuradores. E como os Procuradores de Cortes são Cidades por esta maneira, muito a propósito vem Santo Antônio hoje representado em uma Cidade, porque é Cidade por representação. Mas que Cidade? Civitas supra montem posita: Cidade posta em cima, ou acima dos montes. Clara está a descrição; se a interpretamos misticamente. Cidade acima dos montes, não há outra senão a Jerusalém do Céu, a Cidade da Glória: Civitas, de qua dicitur, Gloriosa dicta sunt de te, Civitas Dei[3], comenta Hugo Cardeal. E por parte desta Cidade do Céu temos hoje na terra a Santo Antônio.

Na Igreja de Santo Antônio se costumam cá fazer as eleições dos Procuradores de Cortes; e também no Céu se fez a eleição na Pessoa de Santo Antônio. E foi a eleição do Céu com toda a propriedade; porque, ainda humanamente falando, e pondo Santo Antônio de parte o Hábito e o Cordão, parece que concorrem nele com eminência as partes e qualidades necessárias para este ofício público. As qualidades que constituem um perfeito Procurador de Cortes são duas: ser fiel, e ser estadista. E quem se podia presumir mais fiel, e ainda mais estadista, que Santo Antônio? Fiel como Português, Santo Antônio de Lisboa; estadista como Italiano, Santo Antônio de Pádua. Deu-lhe a fidelidade a terra própria; a razão de Estado as estranhas. Isto de razão de Estado, com ser tão necessária aos Reinos, nunca se deu muito no nosso (culpa de seu demasiado valor); e os Portugueses, que a usam e praticam com perfeição, mais a devem à experiência das terras alheias que às influências da própria. E como Santo Antônio andou tantas e tão políticas em sua vida, Espanha, França, Itália, ainda nesta parte ficava mui acertada a eleição de sua Pessoa, quanto mais crescendo sobre estes talentos os outros maiores de seu zelo, de sua sabedoria, de sua santidade.

Só fará escrúpulo nesta matéria o gênio tão conhecido de Santo Antônio, segundo o qual parece que era mais conveniente sua assistência em Cortes que se fizessem em Castela, que nestas que celebramos em Portugal. Os intentos de Castela, são recuperar o perdido; os intentos de Portugal, são conservar o recuperado. E como deparar coisas perdidas é o gênio e a graça particular de Santo Antônio, a Castela parece que convinha a assistência de seu patrocínio, que a nós por agora não. Quem nos ajude a conservar o ganhado, é o que havemos mister. Ora, senhores, ainda não conhecemos bem a Santo Antônio? Santo Antônio, para os estranhos, é recuperador do perdido; para com os seus é conservador do que se pode perder. Caminhava o Pai de Santo Antônio a degolar (assim o dizem muitas histórias, inda que alguma fale menos nobremente), e chegando já às portas da Sé, e às suas, eis que apareceu o Santo milagrosamente, fez parar os ministros da justiça, ressuscita o morto, declara-se a inocência do condenado, e fica livre. Pergunto: Por que não esperou Santo Antônio que morresse seu Pai, e depois de morto lhe restituiu a vida? Não é menos fundada a dúvida que no exemplo de Cristo Senhor nosso, de quem diz o Texto de S. João, que avisado da enfermidade de Lázaro, de propósito se deteve e o deixou morrer, para depois o ressuscitar. Distulit sanare, ut posset resuscitare[4], ponderou o Crisólogo: que lhe dilatou a saúde, porque lhe quis ressuscitar a vida. Pois se é mais gloriosa ação, e mais de Cristo ressuscitar uma vida, que impedir uma morte, por que não fez assim Santo Antônio?

Não fora maior milagre, não fora mais bizarra maravilha acabar o verdugo de passar o cutelo pela garganta do Pai, e no mesmo ponto aparecer sobre o teatro o Filho, ajuntar a cabeça ao tronco, levantar-se o morto vivo, pasmarem todos, e não crerem que o viam, ficando só da ferida um fio sutilmente vermelho para fiador do milagre? Pois por que o não fez Santo Antônio assim? Se tinha virtude milagrosa para ressuscitar; se ressuscitou ali um morto; se ressuscitou outros muitos em diversas ocasiões; por que não esperou um pouco para ressuscitar também a seu Pai? Por quê? Porque era seu Pai. Aos estranhos ressuscitou-os, depois de perderem a vida: a seu Pai defendeu-lhe a vida, para que não chegasse a perdê-la; aos estranhos remedeia; mas ao seu sangue preserva. Cristo Senhor nosso foi redentor universal do gênero humano, mas com diferença grande. A todos os homens geralmente livrou-os da morte do pecado, depois de incorrerem nele; mas a sua Mãe preservou-a, para que não incorresse: aos outros deu-lhes a mão, depois de caírem; a sua Mãe teve-a mão, para que não caísse: dos outros foi Redentor por resgate; de sua Mãe por preservação. Assim também Santo Antônio. Aos estranhos ressuscitou-os depois de mortos: a seu Pai conservou-lhe a vida, para que não morresse; que essa diferença faz o Divino Português dos seus aos estranhos. Para com os estranhos é recuperador das coisas perdidas, para com os seus é também preservador de que se não percam. Por isso com bem ocasionada propriedade se compara hoje no Evangelho ao sal: Vos estis sal terrae. O sal é remédio da corrupção, mas remédio preservativo: não remedeia o que se perdeu: mas conserva o que se pudera perder, que é o de que temos necessidade.

Suposto isto, nenhuma parte lhe falta a Santo Antônio, antes todas estão nele em sua perfeição, para o ofício que lhe consideramos de Procurador do Céu nas nossas Cortes. Como tal dirá o Santo hoje seu parecer a respeito da conservação do Reino: e esta será matéria do Sermão. Santo Antônio é o que há de pregar, e não eu. E cuido que desta maneira ficará o Sermão mais de Santo Antônio, que nenhum outro; porque nos outros tratamos nós dele, neste trata ele de nós. Mas como eu sou o que hei de falar, para que o discurso pareça de Santo Antônio, cujo é, e não meu, muita graça me é necessária. Ave Maria.

II

Vos estis sal terrae.

Já Santo Antônio tem dito seu parecer. Nestas quatro palavras breves, nestas seis sílabas compendiosas: Vos-es-tis-sal-ter-rae, se resume todo o arrazoado de Santo Antônio em ordem ao bem e conservação do Reino. E ninguém me diga que disse estas palavras Cristo a Santo Antônio, e não Santo Antônio a nós; porque como a retórica dos do outro mundo são os exemplos, e o que obraram em vida é o que nos dizem depois da morte, dizer Cristo a Santo Antônio o que foi, é dizer-nos Santo Antônio o que devemos ser. Vos estis sal terrae, disse Cristo a Santo Antônio por palavra: Vos estis sal terrae, diz Santo Antônio aos Portugueses por exemplo. Entendamos bem estas quatro palavras, que estas bem entendidas nos bastam.

Vos estis sal terrae. O primeiro fundamento que toma para seu discurso Santo Antônio, é supor que devemos e havemos de tratar de nossa conservação. Isso quer dizer (conforme a exposição de todos os Doutores) Vos estis sal terrae: Vós sois sal da terra. Quem diz sal, diz conservação; a que Cristo encomendava no original destas palavras tem grandes circunstâncias da nossa. Muito tenho reparado, em que primeiro chamou Cristo aos Apóstolos Pescadores, e ao depois chamou-lhes sal: Faciam vos fieri piscatores hominum[5]: Vos estis sal terrae. Se pescadores, por que sal juntamente? Porque importa pouco o ter tomado, se se não conservar o que se tomou. Chamar-lhes Pescadores, foi encomendar-lhes a pescaria; chamar-lhes sal, foi encarregar-lhes a conservação. Sois Pescadores, Apóstolos meus, porque quero que vades pescar por esse mar do Mundo; mas advirto-vos que sois também sal; porque quero que pesqueis, não para comer, senão para conservar. Senhores meus, já fomos Pescadores, ser agora sal é o que resta. Fomos pescadores astutos, fomos pescadores venturosos; aproveitamo-nos da água envolta, lançamos as redes a tempo, e ainda que tomamos somente um peixe-Rei, foi o mais formoso lanço, que se fez nunca; não digo nas ribeiras do Tejo, mas em quantas rodeiam as praias do Oceano. Pescou Portugal o seu Reino, pescou Portugal a sua Coroa; advirta agora Portugal, que não pescou para a comer, senão para a conservar. Foi pescador, seja sal. Mas isto não se discorre, supõe-se.

Porém: Si sal evanuerit, in quo salietur?[6] Se o sal não for efetivo, se os meios que se tomarem para a conservação saírem vãos e ineficazes, que remédio? Esta é a razão de se repetirem; e esta é a maior dificuldade destas segundas Cortes. As primeiras Cortes foram de boas vontades; estas segundas podem ser de bons entendimentos. Nas primeiras tratou-se de remediar o Reino; nestas trata-se de remediar os remédios. Dificultosa empresa, mas importantíssima. Quando os remédios não têm bastante eficácia para curar a enfermidade, é necessário curar os remédios, para que os remédios curem ao enfermo. Assim o fez o mesmo Cristo Deus e Senhor nosso, sem dispêndio de sua Sabedoria, nem erro de sua Providência. Não se pode acertar tudo da primeira vez. Trabalhava Cristo por sarar e converter o seu povo com os remédios ordinários da doutrina, e pregação Evangélica; e vendo que se não seguia a desejada saúde, que fez? Tratou de remediar os remédios, para que os remédios remediassem os enfermos. Em próprios termos o disse Santo Astério, falando da ressurreição da filha de Jairo: Ut vidit Judaeos ad sermones obsurdescere, factis ipsos instituit, ac medicinae medicinam accommodat[7]. Vendo Cristo que estava a enfermidade rebelde, e os ouvintes surdos a seus Sermões, ajuntou às palavras obras, ajuntou à doutrina milagres, e tomou por arbítrio melhorar os remédios, para que os remédios melhorassem os enfermos: Ac medicinae medicinam accommodat. Aplicou umas medicinas a outras medicinas, para que os que eram remédios fracos, fossem valentes remédios. Este é o fim de se repetirem Cortes em Portugal. Arbitraram-se nas passadas vários modos de tributos, para remédio da conservação do Reino; mas como estes tributos não foram efetivos, como estes remédios saíram ineficazes, importa agora remediar os remédios.

III

Mas perguntar-me-á alguém, ou perguntara eu a Santo Antônio: Que remédio teremos nós para remediar os remédios? Muito fácil, diz Santo Antônio: Vos estis sal terrae. Para se curar uma enfermidade, vê-se em que peca a enfermidade: para se curarem os remédios, veja-se em que pecaram os remédios. Os remédios, como diz a queixa pública, pecaram na violência: muitos arbítrios, mas violentos muito. Pois modere-se a violência com a suavidade, ficarão os remédios remediados. Foram ineficazes os tributos por violentos, sejam suaves, e serão efetivos. Vos estis sal terrae: Duas propriedades tem o sal, diz aqui Santo Hilário; conserva, e mais tempera: é o antídoto da corrupção, e lisonja do gosto: é o preservativo dos preservativos, e o sabor dos sabores: Sal incorruptionem corporibus, quibus fuerit aspersus, impertit, et ad omnem sensum conditi saporis aptissimus est[8]. Tais como isto devem ser os remédios com que se hão de conservar as Repúblicas. Conservativos sim, mas desabridos não. Obrar a conservação, e saborear, ou ao menos não ofender o gosto, é o primor dos remédios. Não tem bons efeitos o sal, quando aquilo que se salga fica sentido. De tal maneira se há de conseguir a conservação, que se escuse quanto for possível o sentimento. Tirou Deus uma costa a Adão para a fábrica de Eva: mas como a tirou? Immisit Deus saporem in Adam[9], diz o Texto Sagrado: Fez Deus adormecer a Adão, e assim dormindo lhe tirou a costa.

Pois por que razão dormindo, e não acordado? Disse-o advertidamente o nosso Português Oleastro, e é o pensamento tão tirado da costa de Adão, como das entranhas dos Portugueses: Ostendit, quam difficile sit ab homine auferre, quod etiam in ejus cedit utilitatem: quamobrem opus est ab eo surripere, quod ipse concedere negligit[10]. A costa de que se havia de formar Eva, tirou-a Deus a Adão dormindo, e não acordado, para mostrar quão dificultosamente se tira aos homens, e com quanta suavidade se deve tirar ainda o que é para seu proveito. Da criação e fábrica de Eva dependia não menos que a conservação e propagação do gênero humano; mas repugnam tanto os homens a deixar arrancar de si aquilo que se lhes tem convertido em carne e sangue, ainda que seja para bem de sua casa, e de seus filhos, que por isso traçou Deus tirar a costa a Adão, não acordado, senão dormindo: adormeceu-lhe os sentidos, para lhe escusar o sentimento. Com tanta suavidade e como isto, se há de tirar aos homens o que é necessário para sua conservação. Se é necessário para a conservação da Pátria, tire-se a carne, tire-se o sangue, tirem-se os ossos, que assim é razão que seja; mas tire-se com tal modo, com tal indústria, com tal suavidade, que os homens não o sintam, nem quase o vejam. Deus tirou a costa a Adão, mas ele não o viu, nem o sentiu; e se o soube, foi por revelação. Assim aconteceu aos bem governados vassalos do Imperador Teodorico, dos quais por grande glória sua dizia ele: Sentimus auctas illationes, vos addita tributa nescitis: Eu sei que há tributos, porque vejo as minhas rendas acrescentadas: vós não sabeis se os há, porque não sentis as vossas diminuídas. Razão é que por todas as vias se acuda à conservação; mas como somos compostos de carne e sangue, obre de tal maneira o racional, que tenha sempre respeito ao sensitivo. Tão ásperos podem ser os remédios, que seja menos feia a morte, que a saúde. Que me importa a mim sarar do remédio, se hei de morrer do tormento?

Divina doutrina nos deixou Cristo desta moderação na sujeita matéria dos tributos. Mandou Cristo a S. Pedro, que pagasse o tributo a César, e disse-lhe que fosse pescar, e que na boca do primeiro peixe acharia uma moeda de prata, com que pagasse. Duas ponderações demos a este lugar o dia passado: hoje lhe daremos sete a diferentes intentos. Se Deus não faz milagres sem necessidade, por que o fez Cristo nesta ocasião, sendo ao parecer supérfluo? Pudera o Senhor dizer a Pedro, que fosse pescar, e que do preço do que pescasse, pagaria o tributo. Pois por que dispõe que se pague o tributo não do preço, senão da moeda que se achar na boca do peixe? Quis o Senhor, que pagasse S. Pedro o tributo, e mais que lhe ficasse em casa o fruto de seu trabalho, que este é o suave modo de pagar tributos. Pague Pedro o tributo sim, mas seja com tal suavidade e com tão pouco dispêndio seu, que satisfazendo às obrigações de tributário, não perca os interesses de Pescador. Coma o seu peixe como dantes comia, e mais pague o tributo que dantes não pagava. Por isso tira a moeda não do preço senão da boca do peixe: Aperto ore ejus, invenies staterem[11]. Aperto ore: notai. Da boca do peixe se tirou o dinheiro do tributo; porque é bem que para o tributo se tire da boca. Mas esta diferença há entre os tributos suaves e os violentos: que os suaves tiram-se da boca do peixe, os violentos da boca do pescador. Hão-se de tirar os tributos com tal graça, com tal indústria, com tal invenção, Invenies staterem, que pareça o dinheiro achado, e não perdido; dado por mercê da ventura, e não tirado à força da violência. Assim o fez Deus com Adão; assim o fez Cristo com S. Pedro; e para que não diga alguém, que são milagres a nós impossíveis, assim o fez Teodorico com seus vassalos. A boa indústria é suplemento da Onipotência, e o que faz Deus por todo poderoso, fazem os homens por muito industriosos.

IV

Sim. Mas que indústria poderá haver para que os tributos se não sintam, para que sejam suaves e fáceis de levar? Que indústria? Vos estis sal terrae. Não se mete Santo Antônio a discursar arbítrios particulares, que seria coisa larga, e menos própria deste lugar, posto que não dificultosa: um só meio aponta o Santo nestas palavras, que transcende universalmente por todos os que se arbitrarem, com que qualquer tributo, se for justo, será mais justo; e se fácil, muito mais fácil, e mais suave: Vos estis sal terrae. Nota aqui S. João Crisóstomo a generalidade com que falou Cristo aos Discípulos. Não lhes chamou sal de uma casa, ou de uma família, ou de uma Cidade, ou de uma nação, senão sal de todo o Mundo, sem excetuar a ninguém: Vos estis sal terrae, non pro una gente, sed pro universo Mundo[12], comenta o santo Padre. Queremos, Senhores, que o sal, qualquer que for, não seja desabrido? Queremos, que os meios da conservação pareçam suaves? Non pro una gente, sed pro universo Mundo. Não sejam os remédios particulares, sejam universais: não carreguem os tributos somente sobre uns, carreguem sobre todos. Não se trate de salgar só um gênero de gente: Non pro una gente: reparta-se, e alcance o sal a terra: Vos estis sal terrae. Convida Cristo aos homens para a aceitação e observância de sua Lei, e diz assim: Venite ad me omnes, qui laboratis, et onerati estis, et ego reficiam vos[13]. Vinde a mim todos, que tão cansados e molestados vos traz o Mundo, e eu vos aliviarei: Tollite jugum meum super vos, et invenietis requiem animabus vestris[14]. Tomai o meu jugo sobre vós, e achareis descanso para a vida: Jugum enim meum suave est, et onus meum leve[15]: Porque o jugo de minha Lei é suave, e o peso de meus preceitos é leve.

Ora, se tomarmos bem o peso à Lei de Cristo, havemos de achar que tem alguns preceitos pesados, e, segundo a natureza, assaz violentos. Haver de amar aos inimigos, confessar um homem suas fraquezas a outro homem, bastar um pensamento para ofender gravemente a Deus e ir ao inferno, estes e outros semelhantes preceitos não há dúvida que são pesados e dificultosos, e por tais os estimou o mesmo Senhor, quando lhes chamou Cruz nossa: Tollat Crucem suam, et sequatur me[16]. Pois se os preceitos da Lei de Cristo, ao menos alguns, são cruz pesada, como lhes chama o Senhor jugo suave e carga leve: Jugum enim meum suave est, et onus meum leve? Antes de o Senhor lhes chamar assim, já tinha dito a causa: Venite ad me omnes. A lei de Cristo é uma lei que se estende a todos com igualdade, e que obriga a todos sem privilégio: ao grande e ao pequeno, ao alto e ao baixo, ao rico e ao pobre, a todos mede pela mesma medida. E como a Lei é comum sem exceção de pessoas, e igual sem diferença de preceito, modera-se tanto o pesado no comum, e o violento no igual, que ainda que a lei seja rigorosa, é jugo suave; ainda que tenha preceitos dificultosos, é carga leve: Jugum meum suave est, et onus meum leve. É verdade que é jugo, é verdade que é peso, nem Cristo o nega; mas como é jugo que a todos iguala, o exemplo o faz suave; como é peso que sobre todos carrega, a companhia o faz leve. Clemente Alexandrino: Non praetergredienda est aequalitas, quae versatur in distributionibus honorando justitiam: propterea Dominus, Tollite, inquit, jugum meum super vos, quia benignum est, et leve[17].

O maior jugo de um Reino, a mais pesada carga de uma República, são os imoderados tributos. Se queremos que sejam leves, se queremos que sejam suaves, repartam-se por todos. Não há tributo mais pesado que o da morte, e contudo, todos o pagam, e ninguém se queixa, porque é tributo de todos. Se uns homens morreram, e outros não, quem levara em paciência esta rigorosa pensão da mortalidade? Mas a mesma razão que a estende, a facilita; e porque não há privilegiados, não há queixosos. Imitem as resoluções políticas o governo natural do Criador: Qui solem suum oriri facit super bonos, et malos, et pluit super justos, et injustos[18]. Se amanhece o Sol, a todos aquenta; e se chove o Céu, a todos molha. Se toda a luz caíra a uma parte, e toda a tempestade a outra, quem o sofrera? Mas não sei que injusta condição é a deste elemento grosseiro, em que vivemos, que as mesmas igualdades do Céu, em chegando à terra, logo se desigualam. Chove o Céu com aquela igualdade distributiva que vemos; mas em a água chegando à terra, os montes ficam enxutos, e os vales afogando-se: os montes escoam o peso da água de si, e toda a força da corrente desce a alargar os vales, e queira Deus que não seja teatro de recreação para os que estão olhando do alto, ver nadar as cabanas dos pastores sobre os dilúvios de suas ruínas. Ora, guardemo-nos de algum dilúvio universal, que quando Deus iguala desigualdades, até os mais altos montes ficam debaixo da água. O que importa é que os montes se igualem com os vales, pois os montes são a quem principalmente ameaçam os raios: e reparta-se por todos o peso, para que fique leve a todos. Os mesmos animais de carga, se a deitam toda a uma parte, caem com ela; e a muitos navios meteu nas mãos dos piratas a carga, não por muita, mas por descompassada. Se se repartir o peso com igualdade de justiça, todos o levarão com igualdade de ânimo: Nullus enim gravanter obtulit, quod cum aequitate persolvitur: Porque ninguém toma pesadamente o peso que se lhe distribuiu com igualdade, disse o político Cassiodoro.

V

Boa doutrina estava esta, se não fora dificultosa, e, ao que parece, impraticável. Bom era que nos igualáramos todos: mas como se podem igualar extremos que têm a essência na mesma desigualdade? Quem compõe os três estados do Reino é a desigualdade das pessoas. Pois como se hão de igualar os três estados, se são estados porque são desiguais? Como? Já se sabe que há de ser: Vos estis sal terrae. O que aqui pondero é que não diz Cristo aos Apóstolos: Vós sois semelhantes ao Sal, senão: Vos estis. Vós sois sal. Não é necessária Filosofia para saber que um indivíduo não pode ter duas essências. Pois se os Apóstolos eram homens, se eram indivíduos da natureza humana, como lhes diz Cristo que são sal: Vos estis sal? Alta doutrina de estado. Quis-nos ensinar Cristo Senhor nosso, que pelas conveniências do bem comum se hão de transformar os homens, e que hão de deixar de ser o que são por natureza, para serem o que devem ser por obrigação. Por isso tendo Cristo constituído aos Apóstolos ministros da Redenção, e conservadores do Mundo, não os considera sal por semelhança, senão sal por realidade: Vos estis sal: por que o ofício há-se de transformar em natureza, a obrigação há-se de converter em essência, e devem os homens deixar de ser o que são, para chegarem a ser o que devem. Assim o fazia o Batista, que perguntado quem era, respondeu: Ego sum vox[19]: Eu sou uma voz. Calou o nome da pessoa, e disse o nome do ofício, porque cada um é o que deve ser, e se não, não é o que deve. Se os três estados do Reino, atendendo a suas preeminências, são desiguais, atendam a nossas conveniências, e não o sejam. Deixem de ser o que são, para serem o que é necessário, e iguale a necessidade os que desigualou a fortuna.

A mesma formação do sal nos porá em prática esta doutrina. Aristóteles e Plínio reconhecem na composição do sal o elemento da água e do fogo: Sal est igneae, et aqueae naturae, continens duo elementa, ignem et aquam[20], diz Plínio. A glosa ordinária, e S. Cromácio, acrescentam o terceiro elemento do ar (prova seja a grande umidade deste misto), e diz assim S. Cromácio: Natura salis per aquam, per calorem solis, per flatum venti constat, et ex eo, quod fuit, in alteram speciem commutatur[21]: A matéria ou natureza do sal são três elementos transformados, os quais, tendo sido fogo, ar e água, se uniram em uma diferente espécie, e se converteram em sal. Grande exemplo da nossa doutrina! Assim como o sal é uma junta de três elementos, fogo, ar e água, assim a República é uma união de três estados, Eclesiástico, Nobreza e Povo. O elemento do fogo representa o estado Eclesiástico, elemento mais levantado que todos, mais chegado ao Céu, e apartado da terra; elemento a quem todos os outros sustentam, isento ele de sustentar a ninguém. O elemento do ar representa o estado da Nobreza, não por ser a esfera da vaidade, mas por ser o elemento da respiração; porque os fidalgos de Portugal foram o instrumento felicíssimo, porque respiramos, devendo este Reino eternamente à resolução de sua Nobreza os alentos com que vive, os espíritos com que se sustenta.

Finalmente o elemento da água representa o estado do Povo: (Aquae sunt populi[22], diz um Texto do Apocalipse) e não como dizem os Críticos, por ser elemento inquieto e indômito, que à variedade de qualquer vento se muda; mas por servir o mar de muitos e mui proveitosos usos à terra, conservando os comércios, enriquecendo as Cidades, sendo o melhor vizinho, que a natureza deu às que amou mais. Estes são os elementos de que se compõe a República. De maneira, pois, que aqueles três elementos naturais deixam de ser o que eram, para se converterem em uma espécie conservadora das coisas: Ex eo, quod fuit, in alteram speciem commutatur: assim estes três elementos políticos hão de deixar de ser o que são, para se reduzirem unidos a um estado que mais convenha à conservação do Reino. O estado Eclesiástico deixe de ser o que é por imunidade, e anime-se a assistir com o que não deve. O estado da Nobreza deixe de ser o que é por privilégios, e alente-se a concorrer com o que não usa. O estado do Povo deixe de ser o que é por possibilidade, e esforce-se a contribuir com o que pode: e desta maneira, deixando cada um de ser o que foi, alcançarão todos juntos a ser o que devem, sendo esta concorde união dos três elementos eficaz conservadora do quarto: Vos estis sal terrae.

VI

Amplifiquemos este ponto, como tão essencial, e falemos particularmente com cada um dos três Estados. Primeiramente o estado Eclesiástico deixe de ser o que é por imunidade, e seja o que convém à necessidade comum. Serem isentas de pagar tributo as pessoas e bens Eclesiásticos, o direito humano o dispõe assim, e alguns querem que também o Divino. No nosso passo o temos. Indo propor S. Pedro a Cristo, que os ministros Reais lhe pediam o tributo, respondeu o Senhor que fosse pescar, como dissemos, e que na boca do primeiro peixe acharia o didracma, ou moeda. Dificulto. Suposto que o tributo se havia de pagar do dinheiro milagroso, e não do preço do peixe, para que vai pescar S. Pedro? Não era mais barato dizer-lhe Cristo que metesse a mão na algibeira, e que aí acharia com que pagar? Para Cristo tão fácil era uma coisa como a outra; para S. Pedro mais fácil a segunda. Pois por que lhe manda que vá ao mar, que pesque, e que do dinheiro que achar por esta indústria pague o tributo? A razão foi porque quis Cristo contemporizar com o tributo de César, e mais conservar em seu ponto a imunidade Eclesiástica. Pague Pedro (como se dissera Cristo), mas pague como Pescador, não pague como Apóstolo: pague como oficial do povo, e não como Ministro da Igreja. Deixe Pedro, por representação, de ser o que é, e torne por representação a ser o que foi: deixe de ser Eclesiástico, e torne a ser Pescador; e então pague por obrigação do ofício, o que não deve pagar por privilégio da dignidade. Ita Christus tributum solvere voluit, ut nec publicanos offenderet, nec suum perderet privilegium[23], diz o doutíssimo Maldonado de sentença de S. Crisóstomo e de Eutímio. A sua razão é: Dum non ex suo, sed ex invento solveret: porque pagou do dinheiro achado, e não do seu.

Mas a mim mais fácil me parece distinguir na mesma pessoa diferentes representações, que admitir, receber, e dar sem consideração de domínio. O pensamento é o mesmo; escolha cada um das duas razões a que mais lhe contentar. E como a matéria era de tanta importância, ainda por outra cláusula a confirmou e ratificou o Senhor, para que este exemplo lhe não prejudicasse: Da eis pro me, et te[24]: Dai, Pedro, por mim, e por vós. Da: aqui reparo. Quando lhe vieram perguntar a Cristo, se era lícito pagar o tributo a César, respondeu o Senhor: Reddite quae sunt Caesaris, Caesari, et quae sunt Dei, Deo[25]: Pagai o de César a César, e o de Deus a Deus. Pergunta Teofilato: Quare reddite, et non date? Por que diz Cristo pagai, e não diz dai? A mesma questão faço eu aqui: Da eis pro me, et te. Quare da, et non redde? Por que diz dai, e não diz pagai? Se lá diz Cristo pagai, e não dai, por que cá diz o mesmo Senhor: dai, e não pagai? A razão é, porque lá falava Cristo com os seculares, cá falava com os Eclesiásticos; e quando uns e outros concorrem para os tributos, os seculares pagam, e os Eclesiásticos dão. Os seculares pagam, porque dão o que devem; os Eclesiásticos dão, porque pagam o que não devem. Por isso Cristo usou da cláusula Da com grande providência; para que este ato, tão contrário à imunidade Eclesiástica, não cedesse em prejuízo dela, declarando que o tributo que um e outro estado paga promiscuamente, nos seculares é justiça, nos Eclesiásticos é liberalidade; nos seculares é dívida, nos Eclesiásticos é dádiva: Da: Reddite.

Tanta é a imunidade das pessoas e bens Eclesiásticos: mas estamos em tempo, em que é necessário cederem de sua imunidade para socorrerem a nossa necessidade. Não digo que paguem os Eclesiásticos, mas digo que dêem: não digo Reddite, mas digo Da. Liberalidade peço, e não justiça, ainda que a ocasião presente é tão forçosa, que justiça vem a ser a liberalidade. Com nenhum Doutor alegarei nesta matéria, que não seja ou Sumo Pontífice, ou Cardeal, ou Bispo; para que com o desinteresse em causa própria se qualifique ainda mais a autoridade maior. Quando El-Rei de Israel, Saul, tratava de tirar a vida a Davi, Rei também de Israel, que havia naquele tempo dois que se intitulavam Reis do mesmo Reino: um, Rei injusto, outro Santo: um, Rei escolhido por Deus, outro, reprovado por ele. Neste tempo (que parece neste tempo) foi ter Davi com o Sacerdote Aquimelec, ou Abiatar, e com licença sua tomou do altar os pães da proposição, e repartiu-os a seus soldados. Ação foi esta, que tem contra si um Texto expresso no capítulo vinte e quatro do Levítico, desta maneira: Eruntque (panes propositionis) Aaron, et filiorum ejus, ut comedant eos in loco sancto: quia Sanctum Sanctorum est de sacrificiis Domini jure perpetuo[26]: Quer dizer: que os pães da proposição seriam perpetuamente de Aarão e seus descendentes, e que os comeriam os Sacerdotes, e não outrem, por ser pão santo e consagrado a Deus. Esta é a verdadeira inteligência do Texto, conforme uma glosa de fé no capítulo sexto de S. Lucas. Pois se os pães da proposição eram próprios dos Sacerdotes, e nenhum homem secular podia comer deles licitamente, como os deu a Davi um sacerdote tão zeloso como Aquimelec, e como os tomou para seus soldados um Rei tão santo como Davi?

Não temos menor intérprete ao lugar, que o Sumo Pontífice Cristo, Autor e expositor de sua mesma Lei. Aprova Cristo esta ação de Davi no capítulo segundo de S. Marcos, e diz assim: Nunquam legistis, quid fecerit David, quando necessitatem habuit? Quomodo introivit in domum Dei, et panes propositionis manducavit, quos non licebat manducare nisi sacerdotibus, et dedit eis, qui cum eo erant[27]? Nunca lestes o que fez Davi quando teve necessidade, como entrou no templo de Deus, como tomou os pães, que não era lícito comer senão aos Sacerdotes, e os deu a seus soldados? De maneira que a total razão por que aprova Cristo entrar Davi no templo, e tomar o pão dos Sacerdotes é porque o fez o Rei, quando necessitatem habuit, quando teve necessidade; porque quando estão em necessidade os Reis, é bem que os bens Eclesiásticos os socorram, e que tirem os Sacerdotes o pão da boca para o sustentarem a ele, e a seus soldados. Assim declara Cristo que precede o direito natural ao positivo, e que pode ser lícito, pelas circunstâncias do tempo, o que pelas Leis e Cânones é proibido.

E verdadeiramente que quando a nenhum Rei deveram os Eclesiásticos esta correspondência, os Reis de Portugal a mereciam; porque se atentamente se lerem as nossas Crônicas, apenas se achará Templo, ou Mosteiro em todo Portugal, que os Reis Portugueses com seu piedoso zelo, ou não fundassem totalmente, ou não dotassem de grossas rendas, ou não enriquecessem com preciosíssimas dádivas. Impossível coisa fora deter-me em matéria tão larga e inútil, e tão sabida. Concorram pois as Igrejas a socorrer a seus Fundadores, a sustentar a quem as enriqueceu, e a oferecer parte de suas rendas às mãos de cuja realeza receberam todas. Mais é isto justiça, que liberalidade; mais é obrigação, que benevolência; mais é restituição, que dádiva.

Tirou el-Rei Ezequias do templo, para se socorrer em uma guerra, os tesouros sagrados, e as mesmas lâminas de ouro com que estavam chapeadas as portas; e justificam muito esta resolução assim o Texto, como os Doutores, por três razões: de necessidade em respeito do Reino; de conveniência em respeito do templo; de obrigação em respeito do Rei. Por razão de necessidade em respeito do Reino (diz o cardeal Caetano), porque quando o Reino tinha chegado a termos, que se não podiam conservar, nem defender de outra maneira, justo era que em falta dos tesouros profanos substituíssem os sagrados, e que se empenhassem e vendessem as jóias da Igreja para remir a liberdade pública: Omni exceptione majus est exemplum hoc Ezechiae, ut pro redemptione vexationis ab infidelibus liceat, exhaustis publicis thesauris, ex Ecclesiae totalibus subvenire publicae libertati Christianorum. Por razão de conveniência em respeito do templo (diz o bispo S. Teodoreto); porque mais convinha ao templo conservar-se pobre, que não se conservar; e é certo que na perda ou defensa da Cidade consistia juntamente a sua; porque fazendo-se senhor da Cidade Senaqueribe, também arderia com a Cidade o templo: Quando non sufficiebant thesauri Regis, mos erat in hujusmodi necessitatibus sacros etiam thesauros consumere; necessitas autem effecit, ut etiam conflaret portas aeneas, ne si bello superior fuisset Senacherib, et urbem, et templum incenderet[28]. Finalmente, por razão de obrigação, em respeito do mesmo Rei; porque, como nota o Texto, confregit Ezechias valvas templi, et laminas auri, quas ipse affixerat[29].

As lâminas de ouro, que Ezequias arrancou das portas do templo, ele mesmo as tinha dado; e era justa correspondência, que em tal ocasião as portas se despissem de suas jóias, e restituíssem generosamente o seu ouro a um Rei, que com tanta liberalidade as enriquecera. Os templos são armazéns das necessidades; e os Reis que oferecem votos, depositam socorros. Quando Davi se viu no deserto desarmado e perseguido, nenhum socorro achou senão a espada do Gigante, que consagrara a Deus no templo; que as dádivas, que dedicaram aos templos os Reis vitoriosos, bem é que as restituam os templos aos Reis necessitados. Isto é o que deve fazer o estado Eclesiástico de Portugal, e em primeiro lugar os primeiros dele; que por isso pagou o tributo não outro dos Apóstolos, senão S. Pedro.

VII

O estado da Nobreza também é isento por seus privilégios de pagar tributos: Capita stipendio censa ignobiliora, disse lá Tertuliano; donde Jeremias, falando de Jerusalém: Princeps Provinciarum facta est sub tributo[30]: contrapôs o tributo à nobreza, e exagerou a Jerusalém senhora, para a lamentar tributária. No passo que nos fez o gasto temos também isto. Quando os ministros de César pediram o tributo a S. Pedro, perguntou-lhe Cristo: Quid tibi videtur, Simon? Que vos parece, Pedro, neste caso? Reges terrae a quibus accipiunt tributum, a filiis, an ab alieno?[31] Os Reis da terra de quem recebem tributo, dos filhos, ou dos estranhos?Ab alienis. Dos estranhos, respondeu S. Pedro. Ergo liberi sunt filii?[32] Logo isentos somos nós de pagar tributos? diz Cristo: Eu, porque sou Filho do Rei dos Reis; e vós, porque sois domésticos e criados de minha Casa; que os que têm foro, ou filiação na Casa Real, isentos e privilegiados são de pagar tributos. Hoc exemplum probat, diz o doutíssimo Tanero, etiam familiares ipsius Christi a tributo liberos esse, cum et in humana politia non tantum filius ipse Regis, sed etiam familia ejus a tributis libera esse soleat. Isto resolveu Cristo de jure. Mas de facto que resolveu? Ut autem non scandalizemus eos, vade et da eis pro me, et te. Resolveu que sem embargo de serem privilegiados, pagassem o tributo: porque seria matéria de escândalo, que quando pagavam todos, não pagassem eles. Pois se nos casos comuns lhe parece bem a Cristo que paguem tributos os nobres, a quem isentam as leis, quanto mais em um caso tão extraordinário e maior que pôde acontecer em um Reino, em que se arrisca a conservação do mesmo Reino, do mesmo Rei e a mesma Nobreza?

Por duas razões principalmente me parece que corre grande obrigação à Nobreza de Portugal de concorrerem com muita liberalidade para os subsídios e contribuições do Reino. A primeira razão é, porque as comendas e rendas da Coroa, os fidalgos deste Reino são os que as logram e lograram sempre; e é justo que os que se sustentam dos bens da Coroa, não faltem à mesma Coroa com seus próprios bens: Quae de manu tua accepimus, dedimus tibit. Não há tributo mais bem pago no Mundo, que o que pagam os rios ao mar. Continuamente estão pagando este tributo, ou em desatados cristais, ou em prata sucessiva (como dizem os cultos), e vemos que para não faltarem a esta dívida, se desentranham as fontes e se despenham as águas. Pois quem deu tanta pontualidade a um elemento bruto? Porque se despendem com tanto primor umas águas irracionais? Por quê? Porque é justo que tornem ao mar águas que do mar saíram. Não é o pensamento de quem cuidais, senão de Salomão. Ad locum, unde exeunt, flumina revertuntur[33]: Tornam os rios perpetuamente ao mar (e em tempos tempestuosos com mais pressa e muito tributo); porque, mais ou menos grossas, do mar recebem todas suas correntes. Que injustiça fora da natureza, e que escândalo do universo, se crescendo caudalosos os rios, e fazendo-se alguns navegáveis com a liberalidade do mar, represaram avarentos suas águas, e lhe negaram o devido tributo? Tal seria, se a Nobreza faltasse à Coroa com o ouro que dela recebe. E é muito de advertir aqui uma lição que a terra nos dá, se já não for repreensão, com seu exemplo. A água que recebe a terra é salgada; a que torna ao mar é doce. O que recebe em ondas amargosas, restitui-o em doces tributos. Assim havia de ser, Senhores, mas não sei se acontece pelo contrário. A todos é coisa muito doce o receber; mas tanto que se fala em dar, grandes amarguras! Pois consideremos a razão, e parecer-nos-á imitável o exemplo. A razão por que as águas amargosas do mar se convertem em tributos doces, é porque a terra, por onde passam, recebe o sal em si. Vos estis sal terrae: Portugueses, entranhe-se na terra o sal; entenda-se que o que se dá, é o sal e conservação da terra; e logo serão os tributos doces, ainda que pareçam amargosas as águas.

A segunda razão por que a Nobreza de Portugal deve servir com sua fazenda a el-Rei nosso senhor, que Deus guarde, mais que nenhuma outra Nobreza a outro Rei, é porque ela o fez. Já que a fidalguia de Portugal saiu com a glória de levantar o Rei, não deve querer que a leve outrem de o conservar e sustentar no Reino. Fazer, e não conservar, é insuficiência de causas segundas inferiores: os efeitos das causas primeiras dependem delas in fieri, et conservari. É verdade que muitas vezes tem maiores dificuldades o conservar, que o fazer; mas quem se gloria da feitura, não deve recusar o peso da conservação. Pecou Adão, decretou o Eterno Padre, que não havia de aceitar menor satisfação, que o sangue de seu Unigênito Filho. Notificou-se este decreto ao Verbo (digamo-lo assim), e que vos parece que responderia? Ego feci, Ego feram[34]: Eu o fiz, Eu o sustentarei, diz por Isaías. A razão com que o Filho de Deus se animou à conservação tão dificultosa e tão penosa de Adão, foi com se lembrar que ele o fizera: Ego feci, Ego feram. Para se persuadir a ser Redentor, lembrou-se que fora Criador; e para conservar a Adão com todo o sangue, lembrou-se que o fizera com uma palavra. Nobreza de Portugal, já fizestes ao Rei, conservá-lo agora é o que resta, ainda que custe: Ego feci, Ego feram. Muito foi fazer um Rei com uma palavra, mas conservá-lo com todo o sangue das veias, será a Coroa de tão grande façanha. Sangue e vida é o que peço; que a tão ilustres e generosos ânimos, petição fora injuriosa falar em fazenda.

VIII

Resta que a obrigação absoluta de pagar tributos, só o terceiro estado a tenha. E assim o diz o nosso passo, que, como até agora nos acompanhou, ainda aqui nos não falta. Da boca do peixe tirou S. Pedro a moeda para o tributo; mas perguntará algum curioso, que peixe era este, ou como se chamava? Poucos dias há que eu me não atrevera a satisfazer à dúvida; mas fui-a achar decidida em um Autor estrangeiro da nossa Companhia, chamado Adamus Conthzem, pode ser que seja mais conhecido dos Políticos, que dos Escriturários; mas em uma e outra coisa é muito douto. Diz este Autor, falando do nosso peixe: Piscis est apud Plinium, qui Faber dicitur, et piscis Sancti Petri Christianis: Que é este um peixe, a que hoje os Cristãos chamam peixe de S. Pedro, e Plínio, na sua História Natural, lhe chama Faber. Notável coisa! Faber quer dizer o oficial. De sorte que ainda no mar, quando se há de pagar um tributo, não o pagam os outros peixes, senão o peixe Oficial. Não pagou o tributo um peixe fidalgo, senão um peixe mecânico. Não o pagou um peixe que se chamasse Rei, ou Delfim, ou outro nome menor de nobreza, senão um peixe que se chamava oficial: Faber. Sobre os oficiais, sobre os que menos podem, caem de ordinário os tributos; não sei se por lei, se por infelicidade: e melhor é não saber por quê.

Seguia-se agora, segundo a ordem que levamos, exortar o Povo aos tributos; mas não cometerei eu tão grande crime. Pedir perdão aos que chamei Povo, isso sim. Em Lisboa não há Povo. Em Lisboa não há mais que dois Estados: Eclesiástico, e Nobreza. Vassalos que com tanta liberalidade despendem o que têm, e ainda o que não têm, por seu Rei, não são Povo. Vai louvando o Esposo Divino as perfeições da Igreja, em figura de Esposa e admirando o ar, garbo e bizarria, com que punha os pés no chão, chama-lhe filha de Príncipe: Quam pulchri sunt gressus tui in calceamentis, filia Principis?[35] Não há dúvida que no corpo político de qualquer Monarquia, os pés como parte inferior, significam o Povo. Pois se o Esposo louva o Povo da Monarquia da Igreja, com que pensamento, ou com que energia lhe chama neste louvor filha de Príncipe: Filia Principis? A versão Hebréia o declarou ajustadamente: Filia Principis, idest, filia populi sponte offerentis. Onde a Vulgata diz Filha de Príncipe, tem a raiz Hebréia, Filha do Povo, que oferece voluntária e liberalmente. E Povo que oferece com vontade e liberalidade, não é Povo, é Príncipe: Filia populi sponte offerentis: Filia Principis. Bem dizia eu logo, que em Lisboa não há três Estados, senão dois: Eclesiástico, e Nobreza. E se quisermos dizer que há três, não são Eclesiástico, Nobreza, e Povo, senão Eclesiástico, Nobreza e Príncipes. E a príncipes, quem os há de exortar em matéria de liberalidade?

Só digo por conclusão, e em nome da Pátria o encareço muito a todos, que ninguém repare em dar com generoso ânimo tudo o que se pedir (que não será mais do necessário) ainda que para isso se desfaça a fazenda, a casa, o estado, e as mesmas pessoas; porque se pelo outro caminho deixarem de ser o que são, por este tornarão a ser o que eram: Vos estis sal terrae. A água deixando de ser água, faz-se sal, e o sal, desfazendo-se do que é, torna a ser água. Neste círculo perfeito consiste a nossa conservação e restauração. Deixem todos de ser o que eram, para se fazerem o que devem; desfaçam-se todos como devem, tornarão a ser o que eram. Este é em suma o espírito das nossas quatro palavras. Vos, estis, sal, terrae.

IX

Temos acabado o Sermão. E Santo Antônio? Parece que nos esquecemos dele; mas nunca falamos de outra coisa. Tudo o que dissemos neste discurso foram louvores de Santo Antônio, posto que desconhecidos, por irem com o nome mudado. Chamamos-lhe propriedade do sal, e eram virtudes do Santo. E se não, arribemos brevemente sobre elas, e vamo-las discorrendo. Se a primeira propriedade do sal é preservar da corrupção, que espírito Apostólico houve que mais trabalhasse por conservar incorrupta a Fé Católica com a verdade de sua doutrina, com a pureza de seus escritos, com a eficácia de seus exemplos, e com a maravilha perpétua de seus prodigiosos milagres? Se a segunda propriedade do sal, é, sobre preservativo, não ser desabrido, que Santo mais afável, que Santo mais benigno, que Santo mais familiar, que Santo enfim, que tenha uns braços tão amorosos, que por se ver neles Deus, desceu do Céu à terra, não para lutar como Jacó, mas para se regalar docemente? Se a terceira propriedade do sal Apostólico era não ser de uma senão de toda a terra, quem no Mundo mais sal da terra, que Santo Antônio? De Lisboa deixando a pátria, para Coimbra; de Portugal, com desejo de martírio, para Marrocos; da arribada de Marrocos para Espanha, de Espanha para Itália, de Itália para França, de França para Veneza, de Veneza outra vez à França, outra a Itália, com repetidas jornadas: com os pés andou a Europa, e com os desejos a África, e se não levou os raios de sua doutrina a mais partes do Mundo, foi porque ainda as não tinham descoberto os Portugueses.

Se a quarta propriedade do sal foi ser sujeito das transformações dos elementos, em que Santo se viram tantas metamorfoses, como em Santo Antônio, transformando-se do que era, para ser o que mais convinha? De Fernando se mudou em Antônio, de secular em Eclesiástico, de Clérigo em Religioso, e ainda de um Hábito em outro Hábito, para maior glória de Deus tudo, sendo o primeiro em quem foi crédito a mudança, e a inconstância virtude. Finalmente, se a última propriedade do sal é conseguir o seu fim desfazendo-se, quem mais bizarra e animosamente, que Santo Antônio, se tiranizou a si mesmo, desfazendo-se com penitências, com jejuns, com asperezas, com estudos, com caminhos, com trabalhos padecidos constante e fervorosamente por Deus, até que em trinta e seis anos de idade (sendo robusto por natureza) deixou de ser temporalmente ao corpo, para ser por toda a eternidade à alma, aonde vive, e viverá sem fim?

Notas
[1] Vós sois o sal da terra. (Mt. 5,13).
[2] Vós sois a luz do mundo. Não pode esconder-se uma cidade situada sobre um monte. (Mt. 5, 14)
[3] Coisas gloriosas se dizem de ti, ó cidade de Deus. (Sl. 86, 3)
[4] S. João Crisólogo.
[5] E Jesus lhes disse: Vinde após mim, e eu farei que sejais pescadores de homens. (Mc. 1, 17)
[6] Vós sois o sal da terra. E, se o sal perder a força, com que será ele salgado? Para nada mais serve, senão para ser lançado fora e calcado pelos homens. (Mt. 5, 13)
[7] Santo Astério.
[8] S. Hilário.
[9] Mandou, pois, o Senhor Deus um profundo sono a Adão; e, enquanto ele estava dormindo, tirou uma de suas costelas, pôs carne no lugar delas. (Gn. 2, 21)
[10] Oleastro.
[11] Todavia, para que os não escandalizemos, vai ao mar e lança o anzol, e o primeiro peixe que subir, toma-o, e abrindo-lhe a boca, acharás dentro um estéter; tira-o, e dá-lho por mim e por ti. (Mt. 17, 26)
[12] S. João Crisóstomo.
[13] Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. (Mt. 11, 28)
[14] Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para as vossas almas. (Mt. 11, 29)
[15] Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve. (Mt. 11, 13)
[16] Então, disse Jesus aos seus discípulos: Se alguém quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. (Mt. 16, 24)
[17] Clemente de Alexandria.
[18] Para que sejais filhos do vosso Pai, que está nos céus, o qual faz nascer o seu sol sobre bons e maus, e manda a chuva sobre justos e injustos. (Mt. 5, 45)
[19] Disse-lhes ele: Eu sou a voz do que clama no deserto: endireitai o caminho do Senhor, como disse o profeta Isaías. (Jo 1, 23)
[20] Plínio.
[21] S. Cromácio.
[22] E disse-me: As águas que viste, onde se assenta a prostituta, são os povos, e as nações, e as línguas. (Ap. 17,15)
[23] Maldonado.
[24] Todavia, para que não os escandalizemos, vai ao mar e lança o anzol, e o primeiro peixe que subir, toma-o, e, abrindo-lhe a boca, acharás dentro o estéter; tira-o, e dá-lho por e por ti. (Mt. 17, 26)
[25] Disseram-lhe eles: De César. Então, ele lhes disse: Dai, pois, a césar o que é de César e a Deus, o que é de Deus. (Mt. 22, 21)
[26] E pertencerão a Aarão e a seus filhos, para os comerem no lugar santo; porque são coisa santíssima dos sacrifícios do Senhor por um direito perpétuo. (Lv. 24, 9)
[27] Mas ele disse-lhes: Nunca lestes o que fez Davi, quando estava em necessidade e teve fome, ele e os que com ele estavam? Como entrou na Casa de Deus, no tempo de Abiatar, sumo sacerdote, e comeu os pães da proposição, dos quais não era lícito comer senão aos sacerdotes, dando também aos que com ele estavam? (Mc. 2, 25-26)
[28] S. Teodoreto.
[29] Nesta ocasião, Ezequias despedaçou as meias portas do templo do Senhor, e as chapas de ouro, de que ele mesmo as tinha forrado, e deu-as ao rei dos Assírios. (4Rs. 18, 16)
[30] Como assim está sentada solitária esta cidade antes cheia de povo? Tornou-se como viúva, a senhora das nações; a princesa das províncias ficou sujeita ao tributo. (Tren. 1, 1 [Lm. 1, 1])
[31] E ele respondeu: Sim. E, depois que entrou em casa, Jesus o preveniu, dizendo: Que te parece, Simão? De quem recebem os reis da terra o tributo ou o censo? De seus filhos, ou dos estranhos? (Mt. 17, 24)

[32] Todos os rios entram no mar, e o mar nem por isso transborda; os rios voltam ao mesmo donde saíram, para tornarem a correr. (Ecl. 1, 7)

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