terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Fatos do espírito humano - cap. VIII

D. J. Gonçalves de Magalhães


Texto extraído da edição mais recente, e crítica,  de Fatos do espírito humano (Petrópolis: Vozes, 2004, pp. 179-195.
Notas ao fim do texto.


Capítulo VIII 
Classificação dos sentidos em relação aos fatos principais da existência do homem. Onde estão as sensações. A sensibilidade não é uma faculdade da alma espiritual. Considerações sobre a sensibilidade dos animais, e dos vegetais. Usos do cérebro. Explicação dos atos instintivos dos animais, sem consciência.



É incontestável, segundo acabamos de ver, que todas as sensações estão a priori na faculdade de sentir, como no gérmen preexiste o tipo do seu futuro indivíduo, ou como estava a Ilíada na mente de Homero, antes que ele a produzisse; e só carecem de um estímulo para manifestar-se. Consistem todas as impressões que as provocam em movimentos vibratórios, compatíveis com os nervos que os transmitem ao cérebro. E reduzem-se todas as qualidades dos corpos a movimentos moleculares, dependentes das leis gerais da coesão e expansão, e especiais das afinidades. À exceção da extensão, que é a dimensão do espaço ocupado pelo movimento; e à exceção da forma, que é, para cada corpo inerte, o limite onde se equilibram os movimentos de expansão e de coesão, e determinam o estado sólido, líquido, ou gasoso.

Nenhuma ideia se tem da matéria sem a extensão e a forma; mas essas condições, a que chamam propriedades essenciais dos corpos, dependem tanto da matéria, como depende da água o ser sólida, líquida, ou gasosa.

Assim, podemos definir as sensações: modos diversos da sensibilidade, ocasionados pelos movimentos dos respectivos nervos, e que servem ao espírito de sinais naturais e a priori dos diversos movimentos dos corpos.

Não só as normas das sensações estão a priori na faculdade de sentir, que ao espírito e ao corpo igualmente serve, como também classificadas se acham em sentidos diversos, que pelos seus usos assinalam os fatos essenciais da existência humana temporária.

Assim, o ouvido importa mais à inteligência pura que todos os outros sentidos. Por ele adquirimos a linguagem articulada; por seu intermédio gozamos da poesia, da eloqüência e da música; a sua ausência condena o homem à mudez; a não comunicar-se intelectualmente com os outros homens, a parecer completamente estúpido, se alguém dotado desse sentido não inventa algum meio para suprir dificilmente tão grande falta. Só goza perfeitamente do ouvido o espírito elevado e culto. Mais vezes nos rimos, e choramos pelo que ouvimos, do que pelo que vemos; jamais um quadro, um monumento nos causará tanta comoção e abalo como uma tragédia, ou uma comédia. A mais linda aurora nos parece fria e morta, se a não saúda o canto das aves; e o estrondo do trovão que reboa é mais sublime que o fuzilar do relâmpago no meio das trevas. O espetáculo da natureza, a solidão dos bosques, os campos de batalha, as cenas de luto e de dor, que às vezes vemos com indiferença, todas essas misérias da humanidade, todas essas ridículas fraquezas dos homens que testemunhamos sem o menor alvoroço; narradas, descritas, ouvidas nos comovem, compungem, ou recreiam; como se nada compreendesse a inteligência senão pelo seu sentido predileto. Uma palavra entendida nos reanima, e vigora, ou nos prostra, e faz desmaiar. No cárcere obscuro, sem socorro de objetos externos, o preso, cantando e falando, por si mesmo o pode por em atividade e acalmar as suas mágoas. É o sentido que mais enriquece a memória, que mais serve à consciência, e à razão. A consciência, a inspiração, a razão mesma nos parece uma voz oculta e divina, que nos fala, e aconselha. Se o homem não fosse iluminado pela razão, que subtrai sua alma ao mundo sensível, e a eleva à contemplação das verdades necessárias e gerais, ser-lhe-ia este sentido o último de todos, como é para os irracionais. Não participa o corpo dos seus prazeres todos intelectuais, senão indiretamente, e pela satisfação mesma do espírito. As suas sensações não são sinais de nenhuma necessidade física, nem representam coisa alguma útil ao corpo, e melhor que todas as mais sensações denunciam o movimento que as ocasiona.

Não podemos deixar de admirar as maravilhas deste sentido, que melhor explica as de todos os outros, quando consideramos que, em um vasto salão de baile, o ar assoprado pela respiração de centenas de criaturas, cortado e agitado pelos movimentos delas, varrido pelos dançantes, decomposto pela combustão de mil luzes, vibrado por tantos instrumentos musicais diversos, saindo e entrando em colunas pelas janelas, possa transmitir todos esses movimentos juntos aos nervos auditivos, serem todos recebidos, e sentidos como sons, e no mesmo tempo percebidos, diferenciados, harmonizados pela inteligência! Se pudessem os olhos ver todos esses movimentos juntos em mil direções diversas, partindo a cada instante de todos os pontos, propagando-se por todos os lados, sucedendo-se sem interrupção, como milhares de redemoinhos que desordenadamente se abalroam, e emaranham; que confusão, que vertigem, que caos lhes não pareceria! Entretanto podemos dizer desse ar vibrado por milhares de modos diferentes o que disse Galileu em baixa voz, obrigado pelo Santo Ofício a negar o movimento da Terra em torno do Sol: E pur, si muove! - E nós ouvimos por esse modo!

Se o ouvido é o sentido que mais serve à inteligência pura do espírito, e que lhe dá o instrumento mais natural, a palavra, para discorrer consigo mesmo, e revelar-se aos outros espíritos inteligentes; a vista é o sentido que mais denuncia a reunião da inteligência com a faculdade de sentir, e mais nos chama ao mundo exterior. É o sentido da imaginação, que reúne as sensações de todos os sentidos. Por ele tende sempre o espírito a representar com formas e cores a substância dos corpos, as suas ideias, sua própria substância, e até Deus mesmo. Sem este sentido jamais teria aparecido no mundo a teoria das ideias imagens das coisas. É o sentido das exterioridades, das artes plásticas, do luxo, e da vaidade. Ele serve melhor que os outros sentidos à rápida e multíplice percepção externa das aparências; mas os seus sinais variados de figuras, cores, e movimentos perturbam a inteligência na contemplação sublime das ideias puras. Sua ausência mesmo desde o berço não causa grave dano à inteligência, e fortifica a vontade; e se ele nos falta no meio da vida, reforça-se a inteligência. Se Homero e Milton fossem antes surdos que cegos, é bem provável que não tivéssemos a Ilíada e O paraíso perdido. O sábio universal Diógenes de Alexandria, mestre de S. Jerônimo, e o célebre Saunderson, um dos maiores matemáticos de Inglaterra, foram cegos. De surdos-mudos só conheço Navarrete, discípulo de Ticiano, que pela pintura adquiriu alguma nomeada.

O olfato é o sentido da vida, e melhor que todos nos revela a existência de uma força vital, que organiza o corpo. As suas sensações operam diretamente sobre essa força. Um cheiro nos pode matar repentinamente, intata deixando a organização; um cheiro nos evoca a vida, que parecia fugir-nos. Não são as partículas deletérias, que entram com o ar nos pulmões, o que de súbito sufoca ou mata o infeliz que respira os vapores mortíferos; esse mesmo ar infecto, respirado pela boca em maior quantidade, sem que o sinta o olfato, não causa tão pronto dano. É o cheiro, a simples sensação do cheiro que o mata! A dor mesma a mais violenta, o esfacelo, a destruição de uma parte do organismo não produzem tão rápido efeito sobre a vida como um cheiro. O enfermo extenuado e faminto por exagerada dieta, mais lhe restaura a força vital o farejar o alimento, que tomá-lo, sem sentir-lhe o aroma. Mais prontamente operam alguns remédios pelo cheiro, que por sua tardia ação sobre o estômago, e sobre o organismo. Se melhor estudassem os médicos as propriedades dos cheiros sobre a vida, facilmente curariam algumas moléstias vitais; como as que perturbam a inteligência as curavam os antigos por meio da música, ao que hoje pouca importância damos. Se dormimos, todas as sensações fortes nos despertam; mas certos cheiros extinguem a vida mesmo no sono, sem acordar-nos. Eu creio que os animais se guiam quase exclusivamente por determinados cheiros, que não sentimos. Muitos fatos o provam.

Após o olfato o paladar, sentido puramente orgânico, que denuncia as necessidades do corpo, da vida unida à matéria: como a vista mostra melhor a inteligência unida à sensação. Ele fiscaliza naturalmente, sob a inspeção do olfato, as qualidades das substâncias de que necessita a vida para renovar continuamente o seu corpo; e por isso jamais deixam os médicos de consultá-lo, e de examinar o órgão respectivo.

O tato é o sentido físico e material por excelência. A sua sensação principal, a resistência, faz supor a impenetrabilidade, em que consiste a materialidade. Todas as outras sensações do tato geral, que por ser sentido puramente físico se acha em todo o corpo, o peso, o frio e o calor, sinais da gravitação, da coesão e da expansão, nos dão esses três fenômenos primitivos do corpo inerte.

Além destes cinco sentidos temos a motricidade; o movimento, que não sei por que o não consideram como um sentido distinto, hoje que se sabe que há nervos especiais para o movimento, longo tempo confundido com a sensibilidade. Este sentido, ou esta potência, corresponde à atividade própria do espírito, liga todos os outros sentidos, e os subordina à vontade; manifesta o poder da volição livre e a sua ação e senhorio sobre o corpo. E como as sensações táteis nos servem de sinais da impenetrabilidade inerte no espaço, da coesão e da expansão, essas três condições fundamentais da corporeidade, e de cujo equilíbrio resulta a forma sensível; do mesmo modo serve o movimento voluntário de sinal da atividade livre e causal, em que mais particularmente se revela a personalidade do espírito, a força, o sujeito da inteligência; como o movimento involuntário manifesta a ação instintiva da vida animal.

Coisa admirável! Como o espírito unido ao corpo, se bem que de natureza opostas, pareça com ele unificar-se, e seja ao mesmo tempo ativo pela vontade, e passivo pela sensibilidade, dois fatos que se diria depender um do outro, e formar uma só coisa indivisível, posto que diversos e distintos; assim também os instrumentos dessas duas funções, os nervos do movimento e os da sensibilidade, são complexos, e apenas separados nas suas origens, ou raízes. E o que é mais, as raízes e os filetes que transmitem as volições dos movimentos, são anteriores às raízes dos filetes da sensibilidade, como para indicar pela sua posição a prioridade da atividade sobre a passividade! O espírito humano pode achar essas harmonias, mas não as inventa, como não inventou o seu corpo.

Todos os sentidos servem ao espírito e ao corpo direta ou indiretamente; todas as suas sensações são modificações, ou atos da faculdade de sentir; mas para cada fato especial e distinto da constituição harmônica do homem há um sentido predileto, cujas sensações lhe são mais úteis e aprazíveis; cuja ausência lhe é mais prejudicial; e por esses sentidos podemos naturalmente separar esses elementos, ou fatos distintos. Assim, para a inteligência pura e a consciência temos o ouvido e a palavra; para a percepção externa a vista; para a força vital o olfato; para o organismo o gosto; para a atividade livre o movimento; para o corpo inerte o tato.

Eu distingo aqui a sensibilidade propriamente dita, que é uma propriedade essencial da força vital, que sente sem consciência e sem memória, da percepção externa, ou perceptibilidade do espírito, que recebe, refere, e objetiva essas sensações, as quais lhe servem de sinais de alguma coisa. A perceptibilidade é a faculdade do espírito que se corresponde com a sensibilidade vital, e se serve das sensações, as reúne, e as conserva em memória, e o faz parecer sensível, pela consciência da percepção imediata delas.

A sensibilidade está na força vital. É essa força quem se modifica, e produz a sensação que se apresenta à nossa alma. Se a sensibilidade estivesse na alma inteligente e livre, de cada vez que ela se lembrasse de uma sensação a sentiria de novo, como de cada vez que se lembra de uma concepção a concebe de novo; mas se se lembra de uma dor, ou de um cheiro, ela não os sente de novo; e quando se lembra de uma cor, não a vê, e só a representa em um objeto qualquer percebido por ela. A consciência e a memória das sensações não são atos de sensibilidade, nem dela dependem; são atos da perceptibilidade, conservados em memória.

Um animal inferior, um inseto, sente o cheiro, o gosto, o frio, o calor em espécies e graus relativos às suas necessidades vitais; guia-se momentaneamente por essas sensações, maquinal e instintivamente, sem consciência, sem memória delas; como sem consciência e sem memória os animais herbívoros desde que nascem instintivamente tomam os alimentos que lhes convêm, segundo as suas sensações vitais e especiais, ou instintos.

O engano dos filósofos, que fazem da passividade de sentir uma faculdade da alma humana inteligente, provém de que a alma parece ter consciência das sensações e imediatamente senti-las. Mas a consciência de uma sensação nada mais é do que a consciência da percepção de alguma coisa acompanhada de sensação. A alma parece ter consciência do apetite como ato seu, e não é ela quem apetece, e deseja: tem algumas vezes consciência da percepção acompanhada de sensação do movimento involuntário do corpo, e não é ela quem o move. Sem a percepção do movimento não teria o espírito a sensação do movimento; sem a sensação do movimento não teria ele no estado normal a percepção do movimento; mas distintos são os dois fatos, e no estado anormal se separam. O paralítico de movimento pode percebê-lo, sem senti-lo; no sono sente a vida a ação do cheiro, sem que tenhamos consciência dele. O inseto sente sem perceber, e o sonâmbulo percebe às vezes sem sentir as impressões feitas sobre o seu corpo.

A falar com exatidão, o espírito não tem consciência das sensações como modificações suas, como não a tem do Sol, do seu corpo, e do movimento do corpo; ele só tem consciência das percepções de todas essas coisas; e quanto às sensações mesmas, ele só tem uma percepção imediata, pela sua imediata união com a força vital sensitiva, que é o mediador entre o espírito e o corpo.

A vida que sente sem consciência é a verdadeira natureza plástica imaginada por Cudworth para explicar a ação recíproca da alma e do corpo; mas aqui ela não é uma hipótese; é um fato, é uma força real, demonstrada pela razão e pela experiência, e não imaginada.

Não devemos pois dizer que a alma é dotada de inteligência, de sensibilidade, e de atividade, mas sim que é dotada de inteligência, de perceptibilidade, e de atividade livre, ou liberdade.

Como a força vital também é ativa, mas não livre, e a força do espírito se manifesta na sua livre vontade, devemos dizer atividade livre, ou liberdade, e não simplesmente atividade.

Separada da alma a propriedade de sentir, como a razão e a boa experiência o pedem, fácil será a explicação de muitos fenômenos fisiológicos e naturais; como a ideia de Galileu de supor o Sol no centro do nosso sistema planetário deu a explicação de muitos fenômenos astronômicos, e é hoje uma verdade incontestável. Com a diferença, que a verdade astronômica foi achada por uma hipótese científica; e a que apresento é o resultado da observação, e da experiência sancionada pela razão.

Se a sublime inteligência de Kant, observando melhor os fatos distintos da natureza, tivesse separado a sensibilidade da perceptibilidade, não teria considerado a consciência como um senso íntimo, como um modo da sensibilidade; e tendo reconhecido melhor que ninguém os caracteres necessários e absolutos do tempo e do espaço, não os teria considerado como condições e formas a priori e subjetivas da sensibilidade, em vez de considerá-los como intuições puras a priori e objetivas da razão. Este engano fundamental viciou toda a sua admirável Crítica da razão pura, e o levou a esse subjetivismo, ou antes niilismo completo, apesar de propor-se combater o ceticismo de David Hume, que ele reforçou, em vez de destruir.

Cousin [1], digno intérprete de kant, no seu exame da Crítica da razão pura do filósofo de Königsberg, viu o erro, pôs o dedo de mestre em cima; mas incompleta nos parece a sua refutação, porque ele mesmo considera a sensibilidade como uma faculdade da alma, e a sensação como um fenômeno da consciência; como se a sensação fosse uma modificação do espírito humano.

Infelizmente em favor do que digo não posso citar a opinião de nenhum filósofo antigo, ou moderno; todos de comum acordo atribuem à alma a sensibilidade. Em compensação porém apresento fatos em que se separa a sensação da consciência, como a percepção da sensação.

É verdade que a célebre escola de Alexandria fala de uma alma irracional sensitiva, como fala de uma potência vegetativa. Se eu bem entendi Plotino, tão notável pela sua obscuridade, como pela sua elevada doutrina, ele imagina uma natureza animal, diferente da alma e do corpo, a quem pertence a sensação. Achando dificuldade em atribuir à alma, ou ao corpo, a faculdade de sentir, recorre a essa natureza animal mista, e diz:

“Se nos perguntam agora porque nós sentimos, responderemos: é porque não estamos separados da natureza animal, posto que haja em nós princípios de um gênero mais elevado, que concorrem para formar o todo tão complexo da natureza humana. Quanto à faculdade de sentir que é própria da alma, ela não deve perceber os objetos sensíveis mesmos, mas somente suas formas, impressas no animal pela sensação. Porque essas formas têm já alguma coisa da natureza inteligível: a sensação exterior própria do animal não é senão a imagem da sensação própria da alma”[2].

Por este e outros períodos vemos que Plotino supunha uma natureza intermediária, onde está a sensação; uma faculdade de sentir própria da alma; uma sensação exterior própria do animal; e uma sensação interior própria da alma, da qual a outra é imagem. Desta confusão de palavras só se colige que a profunda inteligência do filósofo de Licópolis distinguia, não claramente, duas espécies de sensações, interiores e exteriores, na dúvida em que estava sobre a quem exclusivamente atribuí-las.

Os fisiologistas e naturalistas modernos, concordes com todos os filósofos em dar à alma humana a faculdade de sentir, e não podendo explicar certos fenômenos da vida vegetal, ou puramente animal, deixaram a tonicidade de Van Helmont e de Stahl, a irritabilidade de Glisson e de Haller, o mecanismo de Boerhaave, a contratibilidade de Blumenbach, e recorrem todos a uma sensibilidade orgânica, e a uma sensibilidade animal.

Reconheceu Bretonneau a ação anestética do éter sobre a sensitiva (Mimosa pudica), e Leclerc adormeceu-a com o láudano. Como negar-lhe um certo grau de sensibilidade latente, propriedade essencialmente vital, que talvez se modifique indefinidamente? Talvez sintam todos os seres vivos; o que não ousamos afirmar. Como não temos sensação alguma das operações ocultas da vida orgânica do nosso próprio corpo, que não são operações mecânicas; como ignoramos completamente de que modo escolhem e tiram do sangue os nossos órgãos o material que lhes convém; nem mesmo como em certos casos se modifica a sensibilidade para apresentar-nos as sensações que recebemos, não podemos saber em que consiste essa sensibilidade orgânica, que possuem os vegetais em comum com os animais. Quanto a estes, os mais inferiores parecem ter as sensações táteis; os superiores o ouvido.

Só o homem tem consciência, inteligência, e liberdade; ele só tem alma, ele só tem fala e o senhorio de si mesmo. Onde não há consciência, razão, e liberdade, não há uma alma espiritual, não há discurso interior, nem palavra.

A sensibilidade não é uma faculdade da alma espiritual que pensa; é uma propriedade da força vital imaterial, que organiza o corpo, e através da qual percebemos.

O cérebro não é o órgão da inteligência, da consciência e da liberdade; é simplesmente o bulbo nutritivo dos nervos, e o órgão onde as impressões transmitidas pelos nervos cerebrais aumentam de intensidade, e duram, a fim de que a vida sensível, sem consciência e sem senhorio de si mesma, possa pela continuação do movimento, ou da impressão do cérebro, continuar a sua operação começada. Sem essa duração da impressão, não haveria para a sensibilidade da vida duração da sensação. Não que essa duração lhe seja conhecida; mas de instante a instante começada, de instante a instante opera a vida; como uma pedra se vai movendo enquanto empurrada; e se a pedra sentisse sem consciência, como a vida, ela se iria movendo por si, e sentindo sucessivamente, e sucessivamente esquecendo-se da sensação do movimento antecedente, de modo que, chegando ao termo do movimento, pararia, e deixaria de sentir a última sensação, como tinha deixado de sentir todas as outras; e para quem a visse e observasse pareceria mover-se ela em virtude de um conhecimento do que fazia.

Mas poderão objetar-me com as belas experiências de Flourens, por mim citadas:

“Se ao animal tiram-se os dois lóbulos cerebrais, ele perde todos os sentidos; deixa de ver, e de ouvir; perde todos os seus instintos; ele não sabe defender-se, nem abrigar-se, nem fugir, nem comer; perde enfim toda a inteligência, toda a percepção, toda a volição, toda a ação espontânea.”

Logo, tem o animal uma inteligência além da faculdade de sentir, tem percepção, tem livre vontade e consciência; por conseguinte tem uma alma, que se serve do cérebro como instrumento.

Ao que respondo: - Por esses admiráveis experimentos só se conclui logicamente, que perdido o cérebro, perde o animal os sentidos superiores, as sensações do ouvido, da vista, do olfato e do paladar que dependem do cérebro, e fica reduzido à vida vegetal, como se ele nascesse surdo, cego, sem olfato, e sem paladar.

Não perde a vida, porque essa não reside no cérebro, e tem a sua sede, no animal, na medula alongada, como o supõe o ilustre fisiologista. Não perde as sensações do tato geral, porque essas, no animal, têm o seu instrumento nos feixes posteriores da medula espinhal. Não perderá os movimentos involuntários, porque esses dependem dos feixes anteriores da mesma medula. Perdendo o animal as sensações superiores, deixa de ser animal, é um vegetal com forma animal, e parecerá assim perder a inteligência.

Poderão voltar o argumento, e dizer-me: Dado o cérebro e as sensações superiores, adquire o animal a inteligência, e por conseguinte uma alma com todas as suas faculdades mais ou menos. E neste caso, ou as sensações superiores, e o cérebro só por si explicam tudo no homem como no animal; ou, se não explicam tudo no homem, também não explicam no irracional, e devemos conceder-lhe uma alma distinta da sensibilidade, ou negá-la ao homem.

Respondo: Todas as sensações superiores quantas tem o homem em comum com os animais explicam perfeitamente os atos, e instintos dos irracionais; mas não explicam a consciência, o eu distinto da sensação, a memória, a razão, a liberdade, a indução, a dedução e a palavra.

O animal pode mover-se, caminhar, comer, e exercitar muitos outros atos em virtude de uma sensação presente e sucessiva; e para isso não necessita de consciência e de um eu. Não sei que um animal pratique ato algum em virtude de uma concepção passada, nem sei se se recolhe em si para meditar sobre o seu estado, o que fez, e o que lhe cumpre fazer; se ele tem passado, e se tem futuro. Ele pode sentir prazer por uma sensação presente, como o sentira por igual sensação passada há um ano, sem lembrar-se da primeira, e assim parecer ter consciência e memória, sem a ter; como a planta nesta primavera desabrocha, produz novas flores, repete o que fizera na primavera passada, sem consciência do presente, sem lembrança do passado. Ele pode como a formiga, como a abelha, preparar o seu celeiro, parecer ter consciência do que faz, e pensar no futuro; como a vida orgânica sem consciência preparar o seu celeiro no tecido celular do animal. Ele pode no meio de sensações diversas mais ou menos convenientes às suas necessidades vitais, parecer hesitar, deliberar, escolher, e decidir-se; como a débil trepadeira sem consciência se inclina, vacila, curva-se, até achar um arrimo a que se encoste, e se vá segurando pelas gavinhas às hastes que encontra. Como o cão e o cavalo, pode parecer reconhecer o seu senhor, ser-lhe fiel, defendê-lo, por instintos naturais modificados pelo hábito, por uma ação magnética que sobre eles exerçamos, ação conhecida, que não devemos desprezar na explicação de certos fatos, e que todos os seres exercem uns sobre os outros, muitas vezes sem conhecimento.

O equilíbrio das diversas sensações pode dar ao animal instintos diversos e inatos, e modificá-los com o tempo; como pelo terreno e a temperatura se modifica a planta; mas não lhe dá inteligência.

Quando me provarem que o animal tem consciência de si, razão, liberdade e palavra; que ele tem percepções das coisas como nós, e não umas simples sensações; que ele induz e deduz; que tem ideias gerais e necessárias, eu direi que o animal tem alma, além da vida sensitiva.

Mas quem poderá penetrar, e ler na consciência dos animais, que não vejo revelar-se em coisa alguma, apesar de terem eles as mesmas sensações que temos, talvez melhores do que nós, e instintos superiores desde o momento em que nascem? Se os tivesse o homem, com a alma que tem, muito mais adiantado estaria, e não precisaria de uma longa e débil infância para aprender. Supor que os animais têm consciência de si, só porque têm sentidos externos, não me parece mais razoável que o supor que vêem os cegos só porque têm os olhos.

Em conclusão, a alma humana, o ser espiritual que pensa e tem consciência de seus atos, não é a substância da vida, como esta não é a dos corpos; ela não pode ter propriedade alguma que seja idêntica à de qualquer outra substância; como a vida, e a matéria não têm nenhuma das faculdades do espírito: e se a vida é dotada de sensibilidade, não é crível que essa propriedade pertença à alma, e à vida ao mesmo tempo.

Entretanto se a nossa alma não tem como sua a propriedade de sentir; isto é, se não é ela quem se modifica para produzir a sensação; essa propriedade da força vital tem, por assim dizer, afinidade com a faculdade de perceber; e faz que a alma, recebendo por ela a sensação, possa servir-se do corpo, e converter naturalmente em sinais das suas percepções essas sensações, que imediatamente as acompanham.

Se geralmente se admite que a alma tem ação sobre o corpo, e este sobre a alma, por intermédio da vida; que as necessidades orgânicas se apresentam ao espírito pelas sensações da fome, da sede e da dor; mais fácil será compreender que sejam as sensações modificações da sensibilidade vital, que não é uma força material, e pode servir de mediador entre a alma e o corpo.

Se não é a alma quem se modifica para produzir a sensação da sede, ou da dor; se ela só as recebe, e percebe o que significam essas sensações; por que não será o mesmo quanto aos som e as cores? Não vejo nisso maior dificuldade para a explicação dos fatos do que na opinião contrária geralmente aceita, que as sensações são modificações do ser que em nós pensa.

A existência de uma força imaterial que organiza o corpo é tão incontestável como a existência de um espírito que pensa, e que não tem consciência de ser ele quem organizou o seu corpo, e quem opera no interior dos órgãos dele. Essa força simples, sensitiva e organizadora é o nexo entre o espírito e o corpo; por que não será ela quem se modifique na presença das impressões orgânicas, e comunique imediatamente ao espírito as suas próprias afecções involuntárias?

Os que supõem que o espírito humano limita-se à faculdade de sentir, poderão crer que assim o despojamos da sua principal, ou única faculdade. Mas como para nós não são as cores, os sons, e os cheiros, nem a sensibilidade toda quem pensa, julga, raciocina, induz, deduz, delibera e quer, não julgamos esbulhá-lo de coisa alguma, atribuindo essas modificações involuntárias à força vital que organiza o corpo; força que consideramos como imaterial, e que move o animal instintivamente. 

Notas 
[1] Philosophie de Kant.
[2] Enéades: I, I, §7º.

Um comentário:

Unknown disse...

Boa tarde Professor !
Meu nome é Roberto de Souza Rodrigues sou seu aluno no IFCS.
O que seria essa teoria da natureza plástica de Cudworth ?
Alem disso, poderia explicar o que seria a sensibilidade em si em varios momentos o autor se refere a isso, mas acabo confundido com as sensações, ou seja , seria o proprio ato de sentir caso se atrela-se as sensações,certo ?