quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Notas a lápis sobre a evolução emocional e mental do homem



Tobias Barreto


  • Texto de 1884. Versão atual baseada na edição de Paulo Mercante e Antonio Paim (BARRETO, Tobias. Estudos de filosofia. In: Obras completas. Rio de Janeiro: Record/INL, 1990, p. 274-288).
  • Notas ao final.


  Este texto resulta de um aprofundamento crítico da teoria "espiritualista" da sensibilidade em Gonçalves de Magalhães [ver Tobias Barreto, “Fatos do espírito humano”, de 1869 (internet: http://textosdefilosofiabrasileira.blogspot.com.br/2013/02/fatos-do-espirito-humano.html)], cujo passo seguinte Tobias Barreto desenvolveu em "A Ciência da alma ainda e sempre contestada", de  1871 [internet: (http://textosdefilosofiabrasileira.blogspot.com.br/2010/12/ciencia-da-alma-ainda-e-sempre.html)]. N. do E.




“Der monistische Gedanke ist allein im Stande, die ewigen Gegensätze, an welchen von jeher die besten Denker sich zerquält haben und die sie dann endlich als unlöslich aufgegeben haben, zum Ausgleich zu bringen. Der Kernpunkt dieses Gedankens liegt ebenfalls in der Warnung. Abstractionen nicht für Wesenheiten zu halten.” (Ludwig Noiré) [1]





I


Atualmente a palavra evolução é uma espécie de magia com que se pretende dissipar todas as dúvidas e quebrar a força de mais de um problema insolúvel.

Passando do vasto domínio da ciência onde o fato ou lei que ela significa ainda é e será por muito tempo objeto de sérios estudos, ao domínio, não menos vasto, do diletantismo leviano e incompetente, a evolução tornou-se, na boca dos literomaníacos, alguma coisa de semelhante ao que é a palavra liberdade na boca dos demagogos, ou a palavra amor na boca das cortesãs, isto é, um termo convencional, um artigo de moda, uma frase de ocasião.

O resultado é que esse vocábulo tem sido desviado do seu verdadeiro sentido. Os mistagogos e gnostas modernos, que o consideram uma espécie de logos divino, que lhe tributam um como respeito religioso, a ponto de escreverem-no com letra inicial maiúscula, com se sói escrever o nome de Deus, esses senhores têm assim contribuído para dar um caráter cabalístico e incompreensível a uma coisa aliás de fácil compreensão.

Entretanto, é certo que a evolução é a palavra que move o mundo; e na frase de Rudolf Gottschall, a palavra que move o mundo não pode ser misteriosa. Está passado o tempo dos oráculos.

Já é costume, geralmente aceito, prender a ideia da evolução ao nome de Darwin. Evolucionismo e darwinismo soam a muitos ouvidos como perfeitos sinônimos. Isto, porém, não é de todo razoável.

A teoria evolucionista surgiu bem antes do darwinismo. Os dois conceitos precípuos, que entram na ideia da evolução, os conceitos de transformação e melhoramento, já eram bem comuns de espíritos notáveis, anteriores ao grande naturalista inglês.

Se a justiça da história e da crítica científica se regulasse pelo direito dos lapônios, segundo o qual o urso não pertence a quem o mata, mas a quem lhe descobriu a pista, Darwin ficaria fora de questão na contenda pela glória. Basta lembrar os nomes de Geoffroy Saint-Hilaire, Lamarck, Goethe, e até Kant e Herder, na opinião de Otto Liebmann, para saber entre quem então a disputa seria travada [2].

Mas o caso aqui é outro. Darwin não criou decerto a teoria do evolucionismo, porém concebeu um novo modo de explicação, tanto mais aceitável quanto apoiado na riqueza dos fatos observados.

Foi o princípio da seleção natural, por sua vez explicada pela grande lei da concorrência vital, ou da chamada luta pela existência, esta bela frase, que entretanto já tornou-se chapa, mas uma chapa de ouro, onde se acha para sempre gravado o nome do célebre autor d’A origem das espécies.

Conquanto o darwinismo seja destarte uma nova forma, a última forma do evolucionismo, todavia pode-se ainda notar uma ligeira diferença entre ambos. Essa diferença não se deixa melhor acentuar e aperceber do que dizendo que o darwinismo é mais científico, e o evolucionismo mais filosófico. Bem entendido: sem dar a esta distinção uma importância capital.

Quando pois afirmo que o evolucionismo é mais velho que o darwinismo, só me refiro à teoria, à ideia nele contida, não assim à palavra, que é relativamente nova, no sentido da geral aplicação hodierna.

Na língua francesa, por exemplo, a primeira aparição do termo évolutionniste foi na Revue des Deux Mondes do 1º de janeiro de 1869, segundo sou informado por Carl Sachs.

Não falo da introdução do neologismo na língua alemã, porque esta pôde bem dispensá-lo; já tinha há muito tempo o seu Entwicklung, que traduz perfeitamente todos os fenômenos evolucionais ou evolucionísticos de que falam franceses e ingleses, positivistas e spencerianos.

Importa sobretudo deixar de lado essa philosophy of epithets and phrases, como há pouco um articulista da Edimburg Review qualificou, com toda a justiça, a filosofia de Spencer. Importa acabar com esse moderno alexandrinismo, que converte palavras em outras tantas realidades.

Assim como os devotos de antigo estilo veem em todas ass coisas, ainda as mais disparatadas, o dedo da Providência, assim também os evolucionistas descobrem em tudo o sinete da evolução, ainda que ela realmente não exista.

Convém reduzir um pouco mais as despesas de fraseologia. Evolução é desenvolvimento. Se este último termo não está hoje muito em moda, por não ter o ar de profundeza e sabedoria, que por si só confere aquela outra expressão, de caráter místico e ocamente sonora, é uma simples questão de galanteria do demimonde literário.

Isto, porém, não quer dizer que eu condene de todo o emprego da palavra. Costumo, e quase que devo também usar dela, ainda que a meu modo, sobretudo no domínio científico, na aplicação das chamadas ideias darwínicas. 

Tenho medo das sentenças que grandes naturalistas têm lavrado contra a importuna legião dos darwinistas amadores. Haeckel, por exemplo, já disse terminantemente:

“O que pensaríeis vós de um leigo, que quisesse dar juízo sobre a teoria das células, ou sobre a teoria dos vertebrados, sem jamais ter cultivado a anatomia comparada?! […] Pois é o que sucede todos os dias a respeito da teoria biológica da descendência. Decidem sobre ela leigos e semicultos, que nada sabem de botânica, nem de zoologia, nem de anatomia comparada, nem de histologia, nem de paleontologia, nem de embriologia”.

E o que sabemos de tudo isto nós outros, homens do direito, discípulos de Papiniano, leitores do Corpus Juris e das Ordenações?

Parece-me que nada. Os meus receios não são infundados.

Schleiden também escreveu o seguinte:

“É uma prova de repugnante gosseria de espírito querer ajuizar de coisas sobre que não se tem o mínimo conhecimento; aconselho pois aqueles que pretendem porventura julgar das doutrinas darwínicas se dignem primeiramente de estudar com toda profundeza (ganz gruendlich) as obras de Darwin, se não querem correr o perigo de se tornarem brilhantemente ridículos.”

O perigo é sério, e não se me levará a mal o desejo de evitá-lo. Com este propósito, aceito do darwinismo, como verdades relativamente incontestáveis, a ideia da luta, o princípio da herança e da adaptação, a seleção natural, e em suas mais altas aplicações, a seleção artística. Tanto me basta.

Dir-se-á talvez que todo o darwinismo está mesmo contido nessas quatro ou cinco ideias. Nenhuma dúvida. Mas essas quatro ou cinco ideias abrem caminho a longos desenvolvimentos, explanações e detalhes que só os homens competentes podem fazer, e é este justamente o domínio, onde não me julgo com o direito de entrar.

À vista da imensa literatura darwinística, posta ao alcance de qualquer leitor menos inculto, a quem é que hoje não seria fácil ostentar muita ciência com a ciência alheia? É verdade, e fui eu mesmo quem já disse, que nós pensamos, falamos e escrevemos a crédito; mas tudo tem seus limites, inclusive esta mesma espécie de crédito intelectual. Diz Emerson:

“Quem tem observado o mundo dos insetos, as moscas, os mosquitos, os inúmeros parasitas, e até os jovens mamíferos, deve ter admirado o seu extraordinário gosto de sugar, que forma a principal ocupação de sua vida. Quando se entra em uma biblioteca ou em gabinete de leitura, vê-se a mesma ocupação exercida com o mesmo afinco.”

É exato; porém, há sempre a notar que uma coisa é sugar a seiva alheia para alimentar-se, haurir alheias ideias para instruir-se, e outra coisa é querer fazer figura com o dinheiro dos outros, respectivé, com o trabalho dos Haeckel, dos Huxley, dos Fritz Müller, quando não sucede receber-se de segunda e terceira mão, recorrendo-se a menores grandezas, como os Spencer, os Le Bon, os Letourneau... et le reste. O parasitismo literário também é uma causa e um sinal de doença.

II 

O processo da evolução emocional e mental do homem é o mesmo processo da civilização, da cultura humana em geral, encarada pelo seu lado íntimo.

O conhecimento desse processo é sobretudo um conhecimento histórico.

A evolução emocional e mental constitui, pois, uma das partes da história evolutiva dos seres orgânicos e vivos. No domínio das ciências naturais toda história evolutiva, segundo Haeckel, divide-se em duas seções: a ontogenia e a filogenia, conforme se trata do desenvolvimento do indivíduo, ou do desenvolvimento do tronco genealógico.

Assim, a ciência das formas orgânicas ou morfologia tem uma dupla face: como morfogenia, ocupa-se do desenvolvimento formal dos indivíduos orgânicos; como morfofilia, da história genealógica das formas ou desenvolvimento paleontológico das espécies, morficamente apreciadas.

Se bem compreendo Haeckel, dou a mim mesmo a seguinte explicação: a morfogenia estuda, por exemplo, no homen, como indivíduo, o desenvolvimento das formas orgânicas, desde o mais ínfimo até o mais alto estádio da vida embrional; a morfofilia estuda no homem, como espécie, o desenvolvimento dessas mesmas formas, desde aquela, sob a qual deveram manifestar-se os primeiros esboços da humanidade, até as que hoje se observam nos graus superiores da evolução morfológica, onde a ciência já encontra na beleza plástica, por exemplo, de um corpo de mulher, alguma coisa de disteleológico, ou irregular, muito além do que é preciso para o fim restrito da propagação da espécie.

Se estes dois ramos da morfologia, no dizer do grande professor de Jena, ainda não chegaram ao grau de adiantamento, que é para desejar, muito menos adiantados se acham os dois ramos correspondentes da fisiogenia, segundo aquele mesmo duplo ponto de vista, não quanto às formas, porém quanto às funções.

O segundo ramo sobretudo, a fisiofilia ou filogenia das atividades vitais, Haeckel considera como ainda quase não cultivado, se bem que em alguns pontos já tenha feito progressos notáveis. É o caso com a filogenia da linguagem, como ela forma atualmente o alvo principal da linguística comparada.

Entro aqui em terrreno sagrado, e como profano que sou — para não ver-me obrigado a tirar os meus sapatos e beijar o chão em que piso —, recuo e passo por fora.

A fisiologia não está na minha alçada. Entretanto, não posso vencer o desejo de fazer ligeiras observações, que não demandam conhecimentos profissionais.

Referindo-se à fisiofilia em geral, diz Haeckel:

“Que monstruosa extensão nos apresenta este domínio, ainda tão pouco estudado, quando consideramos que qualquer atividade vital, qualquer função fisiológica nos animais e nas plantas, bem como nos seres humanos, tem a sua história própria, qualquer delas se há desenvolvido historicamente! Que interessante objeto de indagação oferece, por exemplo, a filogenia ou mais exatamente a fisiofilia dos movimentos! Quão atraente e instrutivo se mostra este problema, só dentro da série dos vertebrados, onde o andar e porte reto do homem é remontável à locomoção dos macacos arborícolas, e mais adiante à dos outros mamíferos quadrúpedes! A locomoção destes é por sua vez herdada dos anfíbios, que ora correm, ora nadam, e que saíram dos dipneustas e peixes habitantes das águas. Nestes últimos então o movimento de remo das barabatanas apresentar-se-á como forma primitiva, donde proveio a função locomotriz do homem.”

Não sei se me engano, mas me parece que há nestas palavras uma genial largueza de vistas, tanto mais dignas de reflexão quanto é certo que Haeckel mesmo não as expõe como dados de uma ciência feita, porém como plano de “disciplinas científicas do futuro”.

Deixando aos competentes a apreciação detalhada do valor, que possam ter tais disciplinas, quero aqui restringir-me a fazer sensível a importância de um ponto. É o que diz respeito à fisiofilia dos movimentos, não dentro da série dos vertebrados, mas limitada unicamente ao desevolvimento humano, e ainda assim, no círculo da humanidade histórica.

A questão é séria. Guilherme His, um dos adversários de Haeckel, combatendo a lei da herança progressiva, não hesitou em dizer: “Há milênios que o nosso porte e o nosso andar são os mesmos; desde séculos, os nossos ascendentes falam sempre a mesma linguagem, e escrevem a mesma escrita; entretanto fomos nós obrigados, como são os nossos filhos, a aprender, cada um por si, estas capacidades”.

Ainda mais: “Há milênios que certos povos exercem a circuncisão, sem que a parte, sempre de novo arrancada, tivesse desaparecido pela herança. Diante de tais experiências não pode medrar a mão cheia de anedotas, que se têm contado em favor da hereditariedade dos atributos individuais adquiridos”.

Para esta expectoração do oráculo, Haeckel parece ter somente um sorriso de desdém, e limita-se, em rápidas notas, a invocar os mestres da dança, os historiadores, filólogos, linguistas e calígrafos, que todos dão testemunho contrário às prentensões de His [3].

Mas eu creio que ao teimoso antagonista do professor de Jena poder-se-ia opor, logo no começo do seu argumento, uma exceção peremptória. Com efeito ele diz: “há milênios que o nosso porte e o nosso andar são os mesmos”. Porém isto será exato? A afirmativa é difícil, depois de alguma reflexão. Se quer dizer somente que há milhares de anos a posição e a marcha do homem são com o corpo em forma vertical, nenhuma dúvida, pois isso não importa mais do que repetir que há séculos dos séculos o homem é bípede. 

Mas a questão é outra; é saber se este mesmo verticalismo, característico da humanidade e dos seus mais próximos parentes, tem ou não passado por variações e melhoramentos, através dos tempos, melhoramentos e variações que são outros tantos produtos de herança e adaptação.

Segundo o belo hemistíquio virgiliano — et vera incessu patuit dea [“e pelo caminhar revelou-se uma verdadeira deusa”. VIRGÍLIO, Eneida, 1.405] —, é de crer que os antigos julgavam conhecer os deuses, ou pelo menos as deusas, pelo modo de pisar. Este privilégio divino é hoje, porém, bem comum da maior parte das mulheres de educação.

Atualmente se distingue, só pelo andar, o homem das cidades do homem dos campos. A mulher rústica se caracteriza sobretudo por um certo peso corpóreo; não possui aquela rapidez de movimentos que assinala a moça de fino trato, desde os músculos que lhe descerram os lábios, por ocasião do riso, até as contrações e expansões ondulosas, que agitam-lhe o corpo, no vórtice de uma valsa.

Ora, estas diferenças no modo de exercer a motricidade, que correspondem a outras tantas no grau da cultura, apreciada em sua totalidade atual, acentuam-se mais claras, quando as consideramos em relação às fases sucessivas do desenvolvimento humano.

É inadmissível que há três ou quatro mil anos, a mulher, esposa ou filha, que brilhava no paço dos faraós, ainda que fosse a bela salvadora e educadora de Moisés, tivesse a mesma graça, a mesma consonância de movimentos orgânicos das que refulgem nos salões atuais.

Um progresso, portanto; este progresso não podia dar-se sem a lei da herediatriedade.

Ainda mais: se o fugitivo instante de abrir e cerrar dos lábios pudesse ser apreendido e descrito com exatidão, os poetas que nos houvessem deixado pinturas da boca ridente das Frines e das Lais, ou das Clódias e das Lídias, dar-nos-iam talvez o direito de falar hoje de um sorrir antigo e de um moderno sorrir. A beleza, como a bondade, é um produto histórico, um resultado da civilização.

Esta ordem de considerações, em aparências digressivas, tem uma vantagem: é prevenir o espírito do leitor contra a facilidade, com que se mete mãos a resolver certas questões, que agora é que começam a sair do fundo das conjeturas fantásticas e hipóteses imaginárias.

Diz Haeckel, como acabamos de ver, que a fisiofilia ou genealogia das funções é um ramo de conhecimento que mal principia a rebentar. Ora, não há dúvida de que o estudo da atividade emocional e mental do homem faz parte dessa genealogia, pois que ideias e sentimentos, em última análise, são funções; por conseguinte esse estudo participa também do estado de balbuciência em que ainda se acha a mesma fisiofilia.

Ninguém há, portanto, a não ser algum enviado do céu, que já possa fazer a história da emocionalidade e mentalidade humana, pois toda evolução é histórica, e isto com o mesmo grau de segurança, com que conta a gênese e o desenvolvimento de qualquer artefato notável dos nossos dias.

Mais que algumas observações e plausíveis conjeturas, ainda não é permitido aventurar neste terreno. A isso me limito.

III

Quando se trata de dar um sentido ao estudo da evolução emocional e mental do homem, a primeira dificuldade que surge é a que resulta da pobreza de materiais precisos para construção do edifício planejado, se não se quer levantar, como os poetas, um palácio de sonhos e quimeras.

O desenvolvimento humano divide-se em dois grandes períodos: o pré-histórico e o histórico. Se já são imensos os embaraços com que se tem de lutar no seguimento da marcha evolutiva das ideias e paixões humanas, dentro das raias da história, o que não serão eles além desses limites, onde […] alguns crânios e pedaços de crânios, um par de queixadas e alguns fragmentos de osssos, como diz Schleiden, são tudo o que existe para dar testemunho da organização dos nossos primitivos avoengos?

O autor que acabo de citar faz a seguinte comparação, esclarecida e instrutiva:

“Na noite tenebrosa do interior da montanha, trabalhavam minadores em perfurar um lado do monte Cênis. Do lado oposto outros se ocupavam em igual mister. Ambos sabiam que um dia haviam de encontrar-se, porque o engenheiro tinha determinado as suas direções. De maneira análoga os naturalistas trabalham através da noite de milênios transatos, divididos em dois grupos, frente a frente um do outro. Eles sabem também que um dia hão de encontrar-se, porque a ciência lhes traçou a direção a seguir. Ali, parte-se do ponto mais longínquo do passado, da época dos primeiros seres vivos sobre a terra, e acompanha-se o desenvolvimento contínuo até a origem do homem. Aqui, porém, toma-se como ponto de partida esse mesmo homem, tal como ele se mostra atualmente, e segue-se a sua história em sentido regressivo por meio dos documentos, das tradições, dos monumentos que resistiram à ação do tempo, enfim, por meio dos sinais guardados nos últimos leitos da formação geológica. Se afinal, e de que modo, estes dois grupos de trabalhadores, no rompimento das espessas sombras do passado, encontrar-se-ão um com o outro, ainda não é o tempo de dizer”. [4]

Ainda não é tempo de dizer — isto afirma um prógono; e tanto basta para inutilizar a pretensão dos epígonos, que já se julgam munidos de todos os dados necessários para, de uma assentada, absorverem o estudo do homem e das sociedades, desde suas origens mais longínquas até os nossos dias.

Neste número está, entre outros, o sociólogo francês Gustave Le Bon, cuja obra L’homme et les societés, semelhante a uma dessas mulheres que apenas interessam pelo diminutivo do pés, visto que o resto é vulgar, só tem de meritório a table des matières, que é de certo prometedora e imponente, mas em vão, completamente em vão. O corpo do livro é quase nulo e insignificante.

Nos meus anos de curso acadêmico ainda alcancei a notícia de um fato, que diziam ter-se dado em uma sabatina.

Certo estudante, respondendo à arguição de um seu colega, não sei sobre que matéria, entendeu dever apelar para a história, e disse convicto: “não precisa ir muito longe, basta o exemplo de Adão e Eva”; ao que o lente acudiu: “e poderia lembrar uma época mais remota?”

O caso não deixou de produzir impressão cômica, e foi então objeto de muitos comentários.

Entretanto os tempos mudaram-se, e quem quer que hoje, lendo a obra de Le Bon, usasse daquela expressão não seria digno de riso, pois que o sábio francês, para estudar o homem e a sociedade, para tratar do direito, da religião, da moral e da indústria, começou pelo protoplasma!...

Adão e Eva são de ontem. Os dois grupos de trabalhadores, de que fala Schleiden, o sociólogo reuniu-os todos em sua cabeça!

Não se me oponha, à vista das minhas simpatias haeckelianas, que também o autor da Natuerliche Schoepfungsgeschichte começou de muito longe. Sem dúvida; mas ele esbarrou no homem; ainda não tranpôs os limites da história natural, para fazer sociologia.

Se entre os alvos, para onde se dirige a Entwicklungsgeschichte, ele assinala como disciplina do futuro uma ciência que ocupar-se-á do desenvolvimento embrional dos troncos, famílias, comunas, Estados, e a que dá o nome de cormogenia, não é de crer por isso que já tenha essa ciência como assentada.

Quem proíbe ao moço de hoje, que ainda não tem filhos, declarar que sua primeira netinha chamar-se-á Diotima ou Gnatênio, Terpsícore ou Melpômene? Pois o caso é semelhante. Por ora, somente o nome.

Voltemos ao centro do assunto. A expressão evolução emocional, que é legítima spenceriana, podia ser muito bem, sem quebra de honra, substituída por esta outra, nossa velha conhecida — desenvolvimento da sensibilidade —, assim como a sua companheira, a evolução mental, nada também perderia, despindo a roupa de gala e tomando o traje comum de... desenvolvimento da inteligência.

Mas fiquem as novas frases, contanto que o seu ar de novidade não se imponha aos espíritos irrefletidos, como uma conquista ou descoberta.

O estudo da emocionalidade e mentalidade do homen tem duas faces: uma individual e outra específica, ou, para empregar ainda aqui as expressões de Haeckel, uma ontogenética e outra filogenética.

A evolução ontogenética de ambas ou de qualquer das duas manifestações da vida, conquanto de muita importância no puro domínio da psicologia, como ela deve ser estudada, e como parece que Condillac já tinha um certo pressentimento no seu sistema de sensações transformadas, todavia não é a que mais nos interessa no domínio da história. Aqui o ponto capital da indagação é a filogenia das emoções e das ideias.

Há um problema muito maior e mais penoso, do que é para o astrônomo catalogar estrelas na imensidade do céu — é para o filósofo catalogar fenômenos que sucessivamente emergem do fundo da alma, através da escuridão dos séculos. A evolução emocional e mental da humanidade forma uma imensa cadeia cujo primeiro elo... quem poderá definir? Conjeturá-lo apenas.

No princípio era o ovo de ouro, dizem as fontes da sabedoria bramínica. Não há mister de remontar tão alto. O evangelho da filogenia emocional e mental tem um intróito menos poético e mais modesto.

No princípio... era a fome e o amor. Estes dois aguilhões da ferocidade animal, que Schiller disse, bem que com algum exagero, ainda hoje serem os únicos sustentáculos do edifício do mundo, é de crer que fossem realmente as forças originárias da cultura, de toda cultura humana.

Nem se concebe que outras molas pudessem mover o homem primitivo além desses dois ímpetos psíquicos, redutíveis às duas capitais funções orgânicas da nutrição e da propagação. Eles formam, por assim dizer, as raízes da árvore genealógica da vida sensível e intelectual.

Mas o que há de mais difícil neste assunto não é determinar o ponto de partida e o ponto de chegada, o estado primitivo e o estado atual do desenvolvimento das paixões e das ideias, das impressões e percepções do homem. O problemático, o indecifrável talvez, consiste em acompanhar com o pensamento a direção ascensional da monstruosa cadeia cujos anéis se contam por milênios.

O problema se complica tanto mais quanto é certo que o estudo dessa evolução, em muitos casos, isto é, em relação a muitas épocas, não seria um estudo de psicologia, mas de psiquiatria histórica. Nele poderiam encontrar-se, como diz Moritz Lazarus, o etnólogo, o historiador e o alienista, com recíproca vantagem.

Ver-se-ia que não raras vezes o processo cultural não tem sido mais do que um processo de desalucinação, desde o primeiro esforço para vencer a pantofobia infantil, que levava o homem a ver por toda parte espíritos perniciosos, no fuzilar do raio, no silvo do vento, no ruído das árvores e das águas, até o trabalho atual de acabamento dos últimos fantasmas da razão mal-educada.

Aprender é desiludir-se. O sistema de Copérnico desiludiu o espírito humano de uma vã imagem dos sentidos. Isto mesmo está de acordo com o fato e significação da experiência.

Esta fonte de todo o saber, a chamada mestra da vida, é mais negativa do que positiva; ela consiste menos em adquirir verdadeiras ideias novas do que arredar velhas e falsas ideias. Não é em vão, mas antes com muito senso, que o homem experimentado costuma falar das suas desilusões.

Acresce ainda uma circunstância; e é que, não obstante o longo decurso das idades, grande número de sentimentos parecem ter ficados estacionários, e de um modo mais anômalo do que se observa no domínio intelectual, onde também o progresso tem sido parcial e incompleto.

IV

Aí está precisamente o ponto questionável nas condições atuais da ciência. Já não é o de saber se tem havido e como tem havido evolução emocional e mental. Se tem havido, é uma questão ociosa; como tem havido, é uma questão sem resposta. Porquanto não bastam para resolvê-la dizer que a sensibilidade e a inteligência se têm diferenciado, no correr dos tempos. Nem todo progresso é uma diferenciação, nem toda diferenciação é um progresso, já o disse Haeckel.

As sutilezas dialéticas, as distinções capciosas da escolástica eram outras tantas diferenciações do pensamento; e ninguém com seriedade julga-las-á um sintoma de evolução progressiva.

Dando pois como irrecusável — e não pode deixar de ser — que a vida mental e emocional dos povos históricos tem tido uma marcha ascendente, limito-me à indicação de certos fatos, que podem ilustrar a teoria, para depois entrar na questão, única admissível no caso de saber qual das suas formas de atividade vital revela mais progresso, ou se uma só tem sido a medida do desenvolvimento de ambas.

Na categoria da evolução emocional compreende-se também, e não sei se principalmente, o que diz respeito às sensações, aos fenômenos da sensibilidade física, segundo a velha tecnologia da escola.

E é digno de nota: um espírito pouco afeito ao estudo não achará grande embaraço em compreender que um sentimento — o amor da pátria, por exemplo — tenha sido alterado pela ação do tempo; mas esse mesmo espírito dificilmente compreenderá que uma sensação ou grupo de sensações não haja mostrado sempre um caráter idêntico em todas as épocas da história.

Entretanto é certo que a segunda asserção é tão razoável como a primeira.

Sirvam de prova as sensações da vista.

“Dois terços dos raios enviados pelo sol”, diz Tyndall, “não despertam em nossos olhos nenhuma sensação visual. Os raios aí estão, mas falta o órgão próprio para transformá-los em luz”. Terá sido sempre assim? Parece que não. Há três mil anos, nem esse mesmo terço era percebido.

Lazarus Geiger, em sua História evolutiva da língua e da razão humana, foi o primeiro a observar que o progresso da humanidade tem tido lugar de um modo quase paralelo à diferenciação das cores. Os gregos do tempo de Homero não conheciam o azul. Até mesmo Demócrito e os pitagoreus só sabiam de quatro cores: branca, preta, vermelha e amarela.

A cor que hoje nos delicia na contemplação do céu e do mar, a cor que hoje racionalmente associa-se à ideia de uns belos olhos de moça loira, foi portanto uma das últimas, senão a última, adicionada pela retina do homem ao espectro solar.

Daí vem talvez que certas almas, que chamarei modernas, poeticamente delicadas e delicadamente sensíveis, são justamente aquelas que mais gostam do azul.

Não dissimulo que, à primeira vista, a coisa é difícil de admitir; porém depois de alguma reflexão, a dificuldade diminui e tende a desaparecer. As línguas por si sós oferecem um meio de verificação.

O blau alemão e o black inglês têm raiz comum no sânscrito. O coeruleus latino, que passou a significar azul, pois é neste sentido que os poetas falam de cerúleas ondas e cerúleos céus, nada encerra em sua origem que dê ideia de cor. A raiz sânscrita quer dizer cavus, cavado, côncavo.

A mesma ordem de considerações se pode fazer a respeito dos sons. A evolução das sensações auditivas é evidente. A história da música é em grande parte a história dessa mesma evolução.

Desde a lira do grego Timóteo, que aliás foi um revolucionário em aumentar-lhe o número das cordas, e mereceu ser acusado por efeminar os ânimos com as suas melodias; desde a lira de Timóteo até o piano de Liszt, há um progresso estupendo, mas também, afinal, o que há progredido — é somente o ouvido do homem.

É de crer que os antigos, usando de menor número de notas, não iam, ainda assim, além do diatonismo; o cromatismo lhes era desconhecido. A verificação direta é impossível; mas podemos recorrer a uma indireta.

Quando se presta séria atenção à estrutura musical das canções populares, produtos de espíritos inteiramente estranhos à cultura hodierna, observa-se que os componistas anônimos de tais canções fazem toda a sua despesa com quatro ou cinco notas; as subidas e descidas da voz são sempre diatônicas. Não há razão de supor alguma coisa de semelhante na música da antiguidade? Eu o creio.

Mas a questão me parece ser outra. O enfraquecimento dessas paixões, que é para elas, consideradas em si mesmas, um defeito, uma pobreza, não será para a vida total uma vantagem, um passo de avançada? Se nos não é lícito afirmar, a simples dúvida basta para obstar que se assente qualquer teoria em contrário.

Quanto à fixidade e permanência aparente de certos sentimentos, a ilusão é mais fácil de dissipar. E previno logo que se me acuse de contraditório, por haver dito que há espíritos que pertencem, por seu modo de sentir, a velhas e longínquas eras. Importa não confundir o estado atual deste ou daquele indivíduo com o estado da humanidade, contemplada em suas alturas.

Com efeito, qual é o sentimento que na realidade tenha permanecido completamente idêntico, indiferenciado, inevolúvel? Nenhum. Quando mesmo fosse exato, como muitos ainda creem, que nos monumentos e na literatura dos povos espelha-se toda a sua vida psíquica, e pudéssemos aceitar, como outras tantas pinturas d’après nature, o sem-número de quadros, mais ou menos idealizados, de antigos tempos — ainda assim as diferenças entre o outrora e o hoje seriam assaz visíveis.

Os exemplos são numerosos, mas limito-me a um só. Ainda é questão indecisa saber se os antigos, principalmente os romanos, tiveram aquilo que hoje chamamos o senso da natureza, o gosto e compreensão das belezas naturais.

Sem aderir de todo à opinião negativa, representada por Schiller, entendo também que não é aceitável a opinião oposta, na extensão que lhe dá, entre outros, Alfredo Biese.

A alma da poesia antiga era o senso mítico, pelo qual a natureza se povoava de seres imaginários; o que repousa no pressuposto de que, sem esses seres, a natureza não tinha encantos, não podia, por si só, nutrir e engrandecer o espírito poético.

Alguns versos de Lucrécio, Catulo e Virgílio provam tanto que a intuição dos últimos tempos da república e princípio do império era naturalística, como pode porventura um clássico dos nossos dias, que ainda ache prazer em Júpiter e seu séquito, provar que a intuição presente continua a ser mítica e politéica. A soma disto é que o sentimento poético desenvolveu-se e alterou-se.

Na gama das emoções, quero crer que o amor é a nota mais agradável. Não terá ele também cedido à lei do progresso? Sem dúvida alguma. O amor de outrora não era o amor atual.

Nem isto está em contradição com ideias já por mim enunciadas. Eu disse uma vez que há um amor superior a todas as diferenciações de raças e costumes — é o amor-morbus, o amor que invade o homem, sem pedir licença, à maneira de cólera ou de febre, como opinava Ivan Turguêniev.

Mas esse amor, quando hoje aparece, por efeito mesmo da sua raridade, já tem direito a ser classificado entre os casos de atavismo.

Em geral o amor hodierno fala o momento trágico, produzido pelo conflito de uma paixão indomável com a ideia da impossibilidade de qualquer união sexual, ainda que esta se reduza ao mínimo de um beijo. Com o nivelamento das classes sociais, realizado ou mesmo só pretendido, a democracia matou a primitiva poesia do amor.

V

A propósito da evolução emocional e mental, importa ainda não esquecer que os dois desenvolvimentos não se dão separadamente.

Qualquer que seja o grau de inferioridade em que o homem se ache na esfera evolutiva, ele não pode emocionar-se, sem que esta emoção seja acompanhada, consciente ou inconscientemente, de uma qualquer atividade mental.

A primeira forma do homem pré-histórico, o homem da época de pedra talhada, já tinha dado um primeiro passo na evolução intelectual, desde que pôde imaginar um modo de aumentar a própria força, armando-se de um instrumento por ele mesmo afeiçoado e acomodado às necessidades da vida.

Vai decerto uma imensa distância entre a mão que trabalhava pedras, como armas, como utensílios, e a mão que hoje cinzela o mármore, para fazer objetos de luxo — mais do que isso, para fazer objetos de contemplação estética.

Mas releva observar que qualquer escultor dos nossos dias, ainda mesmo que ele traga o nome de Canova, é um herdeiro do homem primitivo, desse homem que já sabia dar à pedra, por assim dizer, uma feição humana, adaptando-a de qualquer modo a lhe prestar serviços na luta pela existência.

Aqui vejo que há um fundo de verdade histórica nestas palavras, que uma vez escrevi: “antes que a arte apareça sob a forma de um passatempo, de um brinco do espírito, ela deve aparecer sob a forma de uma atividade prática, ela deve entrar na categoria do trabalho”.

É altamente provável que os Fídias e os Praxíteles, os gênios da escultura em geral, que animam o mármore com o gracioso espírito da beleza, são descendentes diretos do selvagem das cavernas que animava o sílex com o grosseiro espírito da utilidade; até porque é de supor que lá mesmo, na primeira fase do período pré-histórico, a adaptação da pedra ao serviço humano não foi obra de todos ao mesmo tempo, mas descoberta de gênio.

Não suponhamos, portanto, que a evolução emocional encerre alguma coisa de mais antigo, de mais primitivo, que a evolução mental. Esta não é uma fase sucessiva daquela, mas apenas uma outra forma do desenvolvimento humano.

O que há, porém, de mais seriamente questionável está em saber, ou procurar saber, qual das duas evoluções tem sido mais rápida — que quer dizer, qual dos dois lados da psique humana: sensível e intelectual, tem passado por mais transformações, ou se ambas se acham no mesmo grau evolucional.

Que esta segunda questão só pode ser resolvida de modo negativo, os fatos o atestam. O caráter da evolução emocional em relação à mental é quase sempre anacrônico, só raras vezes e excepcionalmente sincrônico.

As ideias de um indivíduo podem ter a última feição, a frescura da atualidade, e todavia as suas emoções quase sempre regularam-se pelo ritmo de uma época anterior. O coração é um relógio que de ordinário anda atrasado.

Todo mundo conhece, entre outros, o fato de os homens, que têm ideias assentadas sobre a não existência de Deus, praticarem atos de veneração e respeito que revelam a crença em contrário.

A um tal fenômeno poder-se-ia chamar predomínio da filogênese sobre a ontogênese, na esfera emocional, como também o ateísmo, a negação de Deus, é uma espécie da reação da ontogênese sobre a filogênese, na esfera intelectual.

É aqui ocasião de tornar mais claro o sentido das palavras filogênese e ontogênese, dando a fórmula da lei, que Haeckel diz ser a lei suprema da biologia.

Ele mesmo enunciou-se em latim, nos seguintes termos: Ontogenesis est summarium phylogeneseos, tanto integrus, quanto hereditate palingenesis conservatur, tanto minus integrum, quanto adptatione cenogenesis introducitur.

Eis aqui: a ontogênese, isto é, o desenvolvimento do indivíduo, é uma recapitulação da filogênese, quero dizer, o desenvolvimento da série, geração, tronco, povo, raça ou espécie, tanto mais completa, quanto pela herança conserva-se a palingênese, isto é, o renascimento, e tanto menos completa, quanto pela adaptação se introduz a cenogênese, quero dizer, o desvio ou falseamento da evolução.

Expliquemo-nos agora. Um homem herda de seus pais uma crença feita sobre Deus e as coisas de além-túmulo. Esta crença divide-se em duas partes: uma parte mental, que se compõem de juízos, raciocínios, afirmações ou negociações categóricas, e outra emocional, que se compõe de aspirações e estremecimentos, de dores e prazeres, de esperanças do céu e terrores do inferno.

Sucede, porém, que esse homem, pelos estudos que faz, pelos livros que lê, pelo ambiente social em que se move, adquire uma intuição diversa de uma intuição herdada, e chega a negar aquilo que seus pais, que seus avós afirmam. Aí temos a ontogênese reagindo à filogênese.

Mas como, por outro lado, sentimentos novos não se bebem nos livros, nem o meio é capaz de transformá-los de repente, daí resulta uma certa desproporção entre o mental e o emocional, ou o que chamei predomínio da filogênese sobre a ontogênese, e o pensador libérrimo não está livre de curvar o joelho, como qualquer de seus avoengos, aos idola tribus da simpleza popular.

Só isto é que bem explica a chocante anomalia pela qual materialistas convictos sentem um calafrio horripilante, ao entrarem de noite numa casa escura e solitária; e nós outros, que lemos Darwin, que nos lisonjeamos de um pouco de cultura filosófica, não estamos muito longe de espavorir-nos ainda por almas do outro mundo e quejandas visões fantásticas.

É esta mesma falta de sincronismo ou homocronismo dos dois desenvolvimentos que pode dar a razão de muito fenômeno esquisito, para o qual não se acha melhor explicação do que um apelo à hipocrisia, à simulação e ao cálculo.

Semelhantes motivos dão a razão de alguma coisa, porém não dão a razão de tudo.

Assim, no mundo político, não é raro ver liberais e até republicanos, qualidade estas que significam um estado mental determinado, praticarem ações dignas do mais atrasado conservador e monarquista.

No mundo social, democratas de ideias firmes não duvidam tomar de repente uma atitude respeitosa e submissa em presença do aristocrata.

No mundo religioso, homens instruídos vão aos templos, munidos de saltérios e livros de orações; o que faz Carl Vogt perguntar a si mesmo, para que fim, diante de um tal espetáculo, gastava mais as suas forças em escrever e pensar!...

Mas a razão é uma só: a diferença de tempo, falta de homocronismo entre as duas evoluções.

O que se observa nos indivíduos dá-se também nos povos, quer considerados em si mesmos, quer comparados uns com outros.

Entre as nações cultas existe na hora presente uma relação sincrônica, no domínio das ideias, não assim porém no domínio dos sentimentos, onde cada uma delas ocupa uma posição diferente.

Há quem conteste que nos povos, considerados em si mesmos, nos diversos estádios de sua história, os dois desenvolvimentos deixem de ser homócronos.

Mas isto só pode sustentar-se ou por capricho, ou por ignorância. Por capricho, se a tese, não obstante ser errônea, todavia presta auxílio a qualquer sistema de especulação sociológica. Por ignorância se realmente crê-se afirmar uma verdade de fato, quando os fatos estão a dar-lhe o mais solene desmentido.

Quem estuda, por exemplo, a história do século XVI na Itália vê justamente a maior desarmonia entre o sentir e o pensar.

Como diz Settembrini, os sacerdotes, os homens de Estado, os escritores, poetas, artistas, enfim todos os homens daquele tempo não eram mais que inteligências, sem paixões grandes, sem sentimento religioso e, o que é pior, sem moral; por isso viam, mas não sentiam os males da pátria; viam, mas não aborreciam a corrupção religiosa, antes chamavam-na splendidezza: por isso também fizeram na arte obras inimitáveis pelo engenho, mas sem afeto.

E que homocronismo poder-ser-ia realmente conceber entre o fulgor intelectual da corte de um Leão X, ou mesmo de um Luís XIV, e os baixos sentimentos que lhe ferviam no íntimo?

Se a respeito de todos homens sobre quem se emprega a frase comum – belo talento, porém mau caráter —, nas raras ocasiões em que esta frase é verdadeira, se pudesse fazer um estudo genético, profundo e detalhado, ver-se-ia que tal desproporcionalidade é redutível a uma desarmonia entre a herança e a adaptação, isto é, a uma simples diferença cronológica.

Nesses casos o belo talento é sempre um parvenu em relação ao mau caráter. Verdade quanto aos indivíduos que também pode ser aplicada às nações.

A nossa questão se reduz enfim a esta fórmula geral: na ontogênese dos indivíduos e dos povos, qual das duas evoluções ressente-se mais da influência da herança, qual das duas abre mais fácil caminho à introdução da cenogênese?

Parece-me incontestável que a evolução emocional é mais lenta, mais sujeita à conservação palingenética. Daí, portanto, um primeiro corolário: as atavizações são menos raras na ordem dos sentimentos do que nas das ideias.

É mais fácil um homem bruto do começo do século passado contar hoje descendentes de gênio do que um ladrão da mesma época ter atualmente o seu nome ligado a uma descendência honrada.

Costumamos chamar os mais velhos nossos maiores; os que hão de vir depois de nós serão os nossos melhores. Isto pode ser afirmado em qualquer momento da história. Porém esse melhoramento é sempre mais largo, mais compreensivo pelo lado intelectual.

Não se me objete com o que disse anteriormente a respeito do amor. Ali tratava-se de comparar um sentimento de hoje com o mesmo sentimento de outrora; aqui, porém, confrontação é entre fenômenos diferentes. Se, entretanto, quisermos sujeitar o amor a igual apreciação, teremos igual resultado.

Como em todos os tempos da cultura humana, o amor em nossos dias também tem um ideal; mas também, como em todos os tempos, está muito aquém desse ideal, seja ele qual for, cavalheiresco ou romântico, filosófico ou naturalístico.

A paixão é sempre diversa dos últimos moldes da ideia.

É possível que um dia se acabe de todo com a metafísica da cabeça: mas me parece que nunca poder-se-á extinguir de todo a metafísica do coração... Sim!...

O coração também é um metafísico:
Estremece por formas invisíveis,
Anda a sonhar uns mundos encantados,
E a querer umas coisas impossíveis.

Tudo isto consequência da maior lentidão do desenvolvimento emocional. Por isso mesmo, e porque o mecanismo social não repousa, como queria A. Comte, sobre opiniões, mas sobre sentimentos, o progresso das sociedades é igualmente lento; ele fica sempre atrás de todos os programas e corpos de doutrina, que pretendem reformá-las.

Notas
[1] “Somente o pensamento monista tem a possibilidade de promover um acordo entre as eternas abstrações, com as quais se angustiaram, desde a Antiguidade, os melhores pensadores, para afinal abandoná-las como insolúveis. O ponto central desse pensamento consiste na seguinte advertência: não se podem tomar, como essências, meras abstrações.” [NOIRÉ,Grundlegung einer Zeitgemässen Philosophie. Leipzig: 1875, p. 44-45. Nota do Editor]
[2] Philosophische Monatshefte, IX Band, p. 442.
[3] Quanto à circuncisão, Haeckel confessa que a influência da herança não se há feito sentir entre todos os povos, que a praticam, há milhares de anos. Porém aqui levanta-se uma objeção mais embaraçosa do que a proveniente da incorrigibilidade do prosaico tegumento; é a que provém da rebeldia da mais interessante das membranas. Com receio de ofender ouvidos castos, exprimo o meu pensamento na própria língua de Haeckel: Seit Jahrtausenden schmuecken sich die Maedchen mit derselben jungfraeulichen Blume, die der rohe Mann immer wieder entlauber; und doch ist das Jungfern — Haeutchen im Lauf der Zeit nicht nur richt verschwunden, sonden vielmehr, wie es scheint, je hoeher sich die Menshheit entwickelt hat, desto mehr hartlich und widerstreben geworden. Não quero gracejar; o assunto é sério.
[Tradução] “Desde milhares de anos, as moças se adornam como as mesmas flores virginais que homens grosseiros desfolham sempre de novo. E assim é a virgindade — membraninha que no correr do tempo nunca desaparece, porém, antes, quanto mais alto evolui a humanidade, mais dura e resistente se torna.” (Trad. do E.)

[4] Unsere Zeit. Neue Folge. Fuenfter Jahrgang. Erste Haelfte, p. 615.

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